"TRANSCRIAÇÃO EMPÁTICA"
A “transcriação empática”
como dispositivo para descrição e análise de um relato de “experiência vivida”
como parte da pesquisa fenomenológica e ou fenomenológico-existencial
Hiran Pinel[1]
A transcriação na história oral, conceito
introduzido pelo historiador brasileiro José Carlos Sebe Bom Meihy, que
é fundador do Núcleo de Estudos em História Oral da USP, é o processo
criativo de transformar a fala gravada de um entrevistado em um texto escrito,
indo além da simples transcrição literal. A transcriação recebe uma crítica,
pontuando a subjetividade do fenômeno, como se não houvesse interiorioridade no
humano como ser-no-mundo, e que tal ato afastaria o texto da fala (ou escrita
fluída emocional) original do documento histórico. Por outro lado, há uma
defesa desse “ser-si-mesmo-interiorano” (vidas afetiva, cognitiva e
comportamental) onde podemos comprovar de que a história oral trabalha com a
memória, a atenção, a emoção, os gestos e o afeto que afeta, e que lidar com
esses fenômenos exige do cientista um ato interpretativo e criativo para
traduzir a experiência vivida, a humana, com dignidade e alcance estético.
A ideia de uma "transcriação empática"
faz uma inventiva parceria entre a metodologia da História Oral (de Meihy) e o
rigor da pesquisa fenomenológica que (pró)cura a “essência” (“essência
existencializada”, efêmera, pois) da experiência vivida.
Na fenomenologia, o seu objetivo não é apenas
relatar fatos, mas capturar o modo como a pessoa sentiu, percebeu e significou
aquele momento experienciado.
A "transcriação empática" é o
processo científico de traduzir a fala (ou escrita livre) do colaborador da
pesquisa para o texto escrito (in)formal, priorizando a ressonância afetiva, os
silêncios e a atmosfera emocional da experiência – o dito, o não-dito trazidos
à lume. Não se trata de inventar algo, mas de usar a sensibilidade literária
para que o leitor consiga sentir a experiência do outro.
Como definir a "transcriação empática"? A
prática da pesquisa de Pinel (1999) age, pelo envolvimento existencial e
distanciamento reflexivo, focando no "mundo da vida" (Lebenswelt)
do ser humano como “ser-no-mundo”, em estado de “projeto de ser”, evocando
“sentido da vida”. O texto transcriado não busca a precisão gramatical pura,
mas a fidelidade ao impacto emocional que o fenômeno teve na vida do sujeito.
Nesse sentido, a coautoria é hiper-sensível, cuidadosa e delicada, pois o
pesquisador, em uma atitude de envolvimento existencial, “se abre” a um papel
encarnado (logo, não é uma representação) de um "tradutor do âmago de
outro”, do ato sentido dele-ser-si-mesmo como ser-no-mundo. O investigador
fenomenológico recorre trazendo o relato de uma experiência de um outro alguém,
geralmente da sua própria seara, e de conhecimento mais aproximado do
pesquisador – assim o sujeito da pesquisa pode ser uma pessoa amiga, por
exemplo. Esse momento implica em trazer mais (e mais) textos para os ruídos da
fala, preservando (e acentuando) o tom, o ritmo e a carga dramática do dito e
do desdito e o não dito. Finalmente, chega-se a uma “validação intersubjetiva”
do relato de uma “experiência vivida”. Aqui-agora, o entrevistado
acaba se reconhecendo, não apenas nas palavras que disse, mas no sentimento (e
ação comportamental) como ser-no-mundo. Um algo de si (na Outridade) que
desejava expressar.
Como aplicar isso na prática da sua pesquisa? A
validade científica se destaca quando o pesquisador (pró)cura estruturar o
processo em quatro passos: 1. Escuta (empática) a fenomenológica (a coleta
indissociada da produção dos dados); 2. A textualização afetiva (o ato
artístico-científico de lapidar-desvelando) modos de ser-no-mundo); 3. A "transcrição
empática" da fala oral e o oral-escrito do afeto que afeta (o poético
aparece, afinal, somos poetas); 4. A validação, perguntamos ao final, à pessoa
que colaborou com a pesquisa: "Ao ler este texto, você sente que ele
expressa a verdade daquilo que você viveu?".
Há algum cuidado metodológico que você deve ter?
Toda pesquisa fenomenológica exige a “epoché relativa” (ler Maurice
Merleau-Ponty no livro “Fenomenologia da Percepção”; Yolanda Cintrão Forguieri
em “Psicologia Fenomenológica” e em “Aconselhamento Terapêutico”, que colabora
com o conceito de “envolvimento existencial”; Heidegger também
transcende ao conceito husserliano de epoché).
Na "transcriação empática", o
risco é a própria voz do cientista abafar a voz do entrevistado – por isso o
compromisso e a ética são indissociais, e nisso a Educação Especial numa
perspectiva nos ensina muito. A inclusão é uma efetiva e concreta postura ética.
Um limite é que a empatia significa conectar-se com o sentimento do outro, e
não projetar os seus sentimentos no relato dele – é um estado de ser-com. O
texto deve ser o espelho da experiência dele (dessa Alteridade de ser),
refinado pela sua própria sensibilidade de cientista fenomenológico-existencial
na compreensão do outro. Compreender é “com+preender”; aprender (ou apreender)
como-o-outro acerva dele mesmo, mas sob “minha percepção”, percepção do
cientista fenomenológico-existencial ou fenomenológico.
O método fenomenológico (puro) e o método
fenomenológico-existencial está no foco filosófico e na forma como compreendem
a relação entre o ser humano, o outro, os outros, as coisas – no/do mundo:
enquanto o primeiro busca descrever as “essências puras da consciência” (com
base em Edmund Husserl), o segundo enfatiza a “experiência vivida” e o “sentido
da existência concreta” de um ser inserido no mundo (com base também em Martin
Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty), ser-no-mundo.
A “transcriação empática”, inspirando-se em
Forghieri (2001; 2007) impõe duas atitudes fenomenológicas indissociadas o
“envolvimento existencial” (predominante, tem momento), e “distanciamento
reflexivo” (tem momento que predominada). Os dois movimentos acontecem
paralelamente, mas com energias e potências diferencias.
Na “transcrição empática” o pesquisador fica
atentivo ao o ”que é” e ao “como é” ser-no-mundo, descrevendo a “experiência
vivida” (tema do método fenomenológico), sem preocupar-se com hipótese
(ainda que possa fazê-lo como em Simone de Beauvoir, in Lemos, 2023; e Virgínia
Moreira, 2004), sem pretender levantar uma tese, já que o leitor possa fazê-lo
(ainda que Petrelli, 2000 - recomende fazer e como).
Propomos, com
esse tipo de “transcriação empática”, algo que nos (co)move a discutir esses
dados, em uma análise existencial-fenomenológica no sujeito real e concreto,
ser-no-mundo que é, da Educação (Especial) Inclusiva e Saúde (Hospitalar, Domiciliar,
Escolar). Nossa disposição aí-aqui-agora não é descrever “a” essência, quando
muito, uma “essência existencializada”, efêmera, inclusiva, sempre em fazimento
“modos de ser ser-sendo si-mesmo com o outro no mundo”. Descrevemos cientificamente
o significado da “experiência vivida”, sem nenhuma pretensão à uma neutralidade
positivista, que tem seu valor em outras metodologias como a experimental
médica, por exemplo. Nossa proposta é uma oposição, um texto provocativo e
sensível ao humano.
Uma pesquisa que estuda a
experiência vivida focando nos significados em vez de aplicar a epoché
estrita (o isolamento/suspensão dos pressupostos) afasta-se da fenomenologia
transcendental clássica (Husserl) e alinha-se à fenomenologia hermenêutica, por
exemplo. A importância dessa abordagem está em entender que a experiência
humana não ocorre em um vácuo, mas é sempre interpretada, ser-no-mundo que
somos.
Eis as características dessas perspectivas,
sempre mais do que uma: 1- A REALIDADE: esse método, reconhece o cientista fenomenológico-existencial
como parte do processo – ele integra o vivido no momento da produção (e coleta)
de dados; o método integra as vivências do pesquisador na análise (e produção dos
dados); enriquece a interpretação (ou analítica fenomenológico-existencial); tem
uma postura mundana, de um ser humano envolvido com esse mundo real e concreto,
e então emerge uma forte oposição, que para nós é uma ilusão, a de que há “neutralidade
absoluta” (que não existe, nesse método). 2. A SOCIEDADE, CULTURA E HISTÓRIA: considera
o contexto cultural (social e histórico) do sujeito que colabora com nossa
pesquisa; valoriza o momento histórico da vivência – mesmo o passado e o sonho
com um futuro, ocorre no aqui-e-agora; compreende que o sentido (da vida) e o significado
muda com o tempo, em espaços diferenciados; considera, como algo potente, a
bagarem intersubjetiva (psicossocial) das pessoas. 3. A HERMENÊUTICA: destaca
como as pessoas narram suas vidas; analisa as metáforas (e outras
literaturalizações) usadas pelos participantes da pesquisa; assume que
compreender já é interpretar; busca o sentido oculto no discurso textual; 4.
IMPLICAÇÕES PARA A VIDA COTIDIANA: facilita estudos em áreas como saúde e
educação (especial) na saúde e nesse complexo âmbito, como o das Classes Hospitalares,
e atendimentos educacionais em ambientes domiciliares, seara do Grufei; gera
insights acionáveis para intervenções sociais, psicossociais, educacionais
pedagógicas, pedagógico-sociais etc.; conecta a teoria diretamente à prática
cotidiana; pode evocar potentes empatias pelas histórias narradas e pontuadas
em seus contextos em uma ligação do ser com o mundo, ser-no-mundo.
[1] A produção desse
texto científico deu-se entre 1999-2000, quando eu era aluno doutorado em
Psicologia pela Universidade de São Paulo. Encontrei esse texto hoje: Vitória,
ES.: 29 de agosto de 2026.