segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

Uma formação existencialista para uma professora-pesquisadora na interseção da Educação Especial e da Saúde propõe um olhar centrado na subjetividade, na liberdade, na responsabilidade e na experiência vivida. Afastando-se de visões puramente instrumentalistas ou estritamente biomédicas, essa perspectiva humaniza tanto a docente quanto os estudantes e pacientes.
Abaixo, a estrutura e as premissas fundamentais dessa trajetória de formação e atuação:
1. Eixos Filosóficos da Formação
  • A centralidade da existência: A existência precede a essência. O estudante com deficiência ou em sofrimento psíquico não é definido por um diagnóstico, mas por suas escolhas e vivências.
  • Angústia e escolha: Reconhecer que o adoecimento e a diferença geram angústia, e que a professora-pesquisadora deve aprender a acolher essa angústia em vez de tentar apenas silenciá-la com técnicas.
  • Alteridade radical: O encontro com o "Outro" (o aluno da educação especial, o paciente) como um sujeito inteiro, livre e singular, e não como um objeto de estudo ou intervenção.
2. A Dimensão da Docência (Professora)
  • Relação Eu-Tu: Baseada no diálogo autêntico (inspirado em Martin Buber), onde a professora se coloca presente por inteiro no processo pedagógico.
  • Mediação sem imposição: Criar espaços para que o estudante da educação especial exerça sua autonomia e faça suas próprias escolhas pedagógicas e de vida.
  • Recusa ao reducionismo: Combater a tendência de enxergar o aluno apenas pelo viés da patologia ou do CID (Classificação Internacional de Doenças).
3. A Dimensão da Investigação (Pesquisadora)
  • Abordagem fenomenológica: A pesquisa foca no sentido que as pessoas dão às suas experiências. O método busca descrever os fenômenos educacionais e de saúde como eles se manifestam na realidade.
  • Pesquisa implicada: A pesquisadora não se posiciona como um observador neutro ou distante. Ela reconhece sua subjetividade e seu impacto ético e político no campo de estudo.
  • Voz aos sujeitos: Privilegiar metodologias que deem protagonismo aos participantes, como histórias de vida, narrativas e cartografias.
4. A Interseção entre Educação Especial e Saúde
                   [ Formação Existencialista ]
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[ Educação Especial ]                           [ Campo da Saúde ]
  - Subjetividade além do diagnóstico.            - Cuidado humanizado e integral.
  - Autonomia e escolha do sujeito.              - Sofrimento visto como existencial.

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             [ Prática da Professora-Pesquisadora ]
             - Despatologização do cotidiano escolar.
             - Ética do acolhimento e da presença.
  • Despatologização: Questionar o excesso de medicalização na infância e na aprendizagem, compreendendo as crises e dificuldades também sob uma ótica existencial e social.
  • Integralidade do cuidado: Entender que a saúde e a educação caminham juntas na promoção de uma vida com sentido para sujeitos historicamente marginalizados.
  • Ética do acolhimento: Substituir a mera busca por "eficiência e reabilitação" por uma prática de cuidado que respeite o tempo, os limites e as potencialidades de cada indivíduo
  • FONTE: GEMINI GOOGLE - CONFIRMEI DADOS E INTERFERI

 

MÉTODO FENOMENOLÓGICO PÓS-HUSSEL

 Pergunto: O "que é" e "como é" o método fenomenológico pós-Husserl, momento em que  seus seguidores abandonam a epoché? Depois disso qual a identidade de tal método investigativo científico?

O método fenomenológico pós-Husserl marca a virada da fenomenologia trascendental para a fenomenologia hermenêutica e existencial. A ruptura central ocorreu quando pensadores como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre e Paul Ricœur questionaram a viabilidade da epoché husserliana — a suspensão neutra dos juízos e do mundo externo para alcançar um "eu puro" ou a essência da consciência.

1. O Abandono da Epoché e a Virada Hermenêutica

Para Husserl, a epoché buscava colocar o mundo "entre parênteses" para analisar as estruturas constitutivas da consciência (noesis-noema). Os pós-husserlianos entenderam que tal neutralidade absoluta (da epoché) é uma ilusão metodológica:


  • Inseparabilidade do Mundo (Dasein): Heidegger argumenta que o ser humano é ser-no-mundo (In-der-Welt-sein). Não há uma consciência pura observando o mundo de fora; já estamos lançados em uma rede de significados, cultura, linguagem e história.
  • Impossibilidade da Neutralidade: Como não é possível "desligar" o próprio ser para analisar o objeto, a tentativa de fazer uma epoché purificadora é abandonada em prol da explicitação das pré-compreensões.
  • Da Descrição à Interpretação: A tarefa da fenomenologia deixa de ser a descrição pura das essências e passa a ser a compreensão interpretativa (hermenêutica) do sentido da existência concreta.


O círculo hermenêutico na fenomenologia pós-Husserl. Fonte: SciELO

2. A Identidade do Método Fenomenológico Pós-Husserliano

Após o abandono da epoquê husserliana tradicional, a fenomenologia assume uma identidade hermenêutico-existencial e encarnada. Ela se firma não como uma busca por verdades estáticas, mas como um rigoroso método de explicitação dos sentidos da experiência vivida (Lebenswelt).

As Quatro Mutações Fundamentais da Identidade Metodológica

Dimensão

Fenomenologia Husserliana (Trascendental)

Fenomenologia Pós-Husserliana (Hermenêutica/Existencial)

Foco de Análise

Consciência intencional e ego trascendental.

Existência concreta, corporeidade e ser-no-mundo.

Postura do Pesquisador

Observador neutro que aplica a epoché.

Sujeito implicado que reconhece sua historicidade.

Operação Principal

Descrição e redução eidética (de essências).

Interpretação hermenêutica e analítica existencial.

Horizonte

Validade universal das estruturas da consciência.

Historicidade, finitude, linguagem e contexto da vivência.

3. O Método como Investigação Científica Qualitativa

Nas ciências humanas e da saúde contemporâneas (como Psicologia, Enfermagem e Educação), o método fenomenológico pós-husserliano consolidou-se através de procedimentos qualitativos rigorosos:

1.    Acolhimento da Pré-compreensão: O pesquisador não finge neutralidade. Ele explicita suas premissas teóricas e existenciais antes e durante a investigação, integrando-as criticamente ao processo.

2.    Círculo Hermenêutico: Movimento dialético entre a totalidade do texto/relato e suas partes. A interpretação avança conforme o pesquisador confronta sua pré-compreensão com os dados da experiência do participante.

3.    Analítica do Mundo da Vida (Lebenswelt): Investigação focalizada nas dimensões da existência concreta:

o   Linguagem e Narrativa: A análise do discurso como espaço de revelação do sentido (Gadamer, Ricœur).

o   Corporeidade (Lived Body): O corpo próprio como mediação primária de percepção e ação no mundo (Merleau-Ponty).

o   Temporalidade e Spatialidade Existenciais: Como o tempo vivido e o espaço afetam a experiência do fenômeno estudado.

Em suma, a identidade desse método científico não se sustenta no isolamento do fenômeno em laboratório ou sob o olhar de um espectador descompromissado, mas na compreensão interpretativa da experiência vivida em seu horizonte histórico e existencial.


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Os pensadores que se seguiram a Husserl não descartaram a fenomenologia, mas redefiniram seus fundamentos ao apontar que a epoché (a suspensão do julgamento sobre o mundo externo para acessar a consciência pura) dependia de uma premissa irreal: a possibilidade de separar o sujeito do mundo que ele habita.

Abaixo estão as críticas centrais feitas por Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre.

1. Martin Heidegger: A Impossibilidade da Distância e a Primazia do Dasein

Heidegger altera o eixo da fenomenologia da epistemologia (como conhecemos) para a ontologia (como somos). Sua crítica à epoché estrutura-se em dois pontos principais:

  • O Ser-no-Mundo (In-der-Welt-sein): Para Heidegger, a consciência não é uma entidade isolada que observa o mundo de fora. O ser humano (Dasein) já está, desde sempre, "lançado" em uma teia de relações, práticas, cultura e linguagem. Colocar o mundo "entre parênteses" pressupõe que podemos nos desligar dessa teia, o que é uma ilusão.
  • A Ante-Estrutura da Compreensão (Vor-struktur): Toda interpretação da realidade parte de pré-compreensões históricas e existenciais. Em vez de tentar eliminar ou suspender esses pressupostos por meio da epoché, a tarefa da fenomenologia (agora hermenêutica) é explicitá-los e interpretá-los.

2. Maurice Merleau-Ponty: A Incompledeza da Redução e o Corpo Próprio

Merleau-Ponty dedica o prefácio da Fenomenologia da Percepção a reavaliar a redução husserliana. Ele imortalizou essa crítica com a célebre frase: "O maior ensinamento da redução é a impossibilidade de uma redução completa."

  • O Corpo Encarnado (Corps Propre): Merleau-Ponty argumenta que não percebemos o mundo com uma mente pura, mas com e através de um corpo biológico, histórico e situado. Como a nossa própria percepção é fruto dessa ancoragem corporal no mundo, é impossível "suspender" a presença do mundo sem suspender o próprio sujeito da percepção.
  • A Epoché como Revelação, Não como Desconexão: Para Merleau-Ponty, o verdadeiro papel da redução não é nos afastar do mundo para encontrar essências puras, mas romper momentaneamente com a nossa atitude irrefletida (atitude natural) apenas para nos fazer admirar e reconhecer o quanto já estamos visceralmente enraizados na realidade.

3. Jean-Paul Sartre: A Consciência Desprovida de "Eu Puro"

Sartre, em A Transcendência do Ego e O Ser e o Nada, aceita a intencionalidade husserliana ("toda consciência é consciência de algo"), mas rejeita veementemente o resultado que Husserl buscava com a epoché: o Ego Trascendental (o "Eu puro").

  • O Ego está no Mundo, Não na Consciência: Sartre sustenta que a epoché husserliana cometeu o erro de colocar um "Eu" dentro da consciência purificada. Para Sartre, a consciência reflexiva pura é um "nada" — uma abertura esvaziada —, e o "Eu" é apenas um objeto como qualquer outro, construído no próprio mundo e através da ação no tempo.
  • Radicalidade do Engajamento: Para Sartre, tentar suspender a tese do mundo para alcançar uma esfera pura e contemplativa é uma tentativa de fugir da contingência e da responsabilidade da ação concreta (o que ele mais tarde relacionaria à "má-fé"). A existência precede a essência; portanto, não há essências puras a serem contempladas no isolamento da epoché.

Quadro Comparativo das Objeções

Filósofo

Objeção Principal à Epoché

Conceito Chave de Substituição

Martin Heidegger

O sujeito não pode se desligar da rede de significados em que já está lançado.

Dasein (Ser-no-mundo) e Hermenêutica.

Maurice Merleau-Ponty

A percepção é encarnada; o corpo não pode suspender o mundo do qual faz parte.

Corpo Próprio e Incompletude da Redução.

Jean-Paul Sartre

Não existe um "Ego puro" por trás da consciência para onde recuar.

Consciência Transparente e Existência Situada.

 Fonte: Geminai, com minhas interferências, e correções (à minha percepção, não como filósofo - ainda que eu seja licenciado ou psicólogo, mas como pedagogo pesquisador na esfera da Educação Especial Inclusiva e Saúde) - Hiran Pinel

sábado, 29 de agosto de 2026

"TRANSCRIAÇÃO EMPÁTICA"

A “transcriação empática” como dispositivo para descrição e análise de um relato de “experiência vivida” como parte da pesquisa fenomenológica e ou fenomenológico-existencial

Hiran Pinel[1]

A transcriação na história oral, conceito introduzido pelo historiador brasileiro José Carlos Sebe Bom Meihy, que é fundador do Núcleo de Estudos em História Oral da USP, é o processo criativo de transformar a fala gravada de um entrevistado em um texto escrito, indo além da simples transcrição literal. A transcriação recebe uma crítica, pontuando a subjetividade do fenômeno, como se não houvesse interiorioridade no humano como ser-no-mundo, e que tal ato afastaria o texto da fala (ou escrita fluída emocional) original do documento histórico. Por outro lado, há uma defesa desse “ser-si-mesmo-interiorano” (vidas afetiva, cognitiva e comportamental) onde podemos comprovar de que a história oral trabalha com a memória, a atenção, a emoção, os gestos e o afeto que afeta, e que lidar com esses fenômenos exige do cientista um ato interpretativo e criativo para traduzir a experiência vivida, a humana, com dignidade e alcance estético.

A ideia de uma "transcriação empática" faz uma inventiva parceria entre a metodologia da História Oral (de Meihy) e o rigor da pesquisa fenomenológica que (pró)cura a “essência” (“essência existencializada”, efêmera, pois) da experiência vivida.

Na fenomenologia, o seu objetivo não é apenas relatar fatos, mas capturar o modo como a pessoa sentiu, percebeu e significou aquele momento experienciado.

A "transcriação empática" é o processo científico de traduzir a fala (ou escrita livre) do colaborador da pesquisa para o texto escrito (in)formal, priorizando a ressonância afetiva, os silêncios e a atmosfera emocional da experiência – o dito, o não-dito trazidos à lume. Não se trata de inventar algo, mas de usar a sensibilidade literária para que o leitor consiga sentir a experiência do outro.

Como definir a "transcriação empática"? A prática da pesquisa de Pinel (1999) age, pelo envolvimento existencial e distanciamento reflexivo, focando no "mundo da vida" (Lebenswelt) do ser humano como “ser-no-mundo”, em estado de “projeto de ser”, evocando “sentido da vida”. O texto transcriado não busca a precisão gramatical pura, mas a fidelidade ao impacto emocional que o fenômeno teve na vida do sujeito. Nesse sentido, a coautoria é hiper-sensível, cuidadosa e delicada, pois o pesquisador, em uma atitude de envolvimento existencial, “se abre” a um papel encarnado (logo, não é uma representação) de um "tradutor do âmago de outro”, do ato sentido dele-ser-si-mesmo como ser-no-mundo. O investigador fenomenológico recorre trazendo o relato de uma experiência de um outro alguém, geralmente da sua própria seara, e de conhecimento mais aproximado do pesquisador – assim o sujeito da pesquisa pode ser uma pessoa amiga, por exemplo. Esse momento implica em trazer mais (e mais) textos para os ruídos da fala, preservando (e acentuando) o tom, o ritmo e a carga dramática do dito e do desdito e o não dito. Finalmente, chega-se a uma “validação intersubjetiva” do relato de uma “experiência vivida”.  Aqui-agora, o entrevistado acaba se reconhecendo, não apenas nas palavras que disse, mas no sentimento (e ação comportamental) como ser-no-mundo. Um algo de si (na Outridade) que desejava expressar.

Como aplicar isso na prática da sua pesquisa? A validade científica se destaca quando o pesquisador (pró)cura estruturar o processo em quatro passos: 1. Escuta (empática) a fenomenológica (a coleta indissociada da produção dos dados); 2. A textualização afetiva (o ato artístico-científico de lapidar-desvelando) modos de ser-no-mundo); 3. A "transcrição empática" da fala oral e o oral-escrito do afeto que afeta (o poético aparece, afinal, somos poetas); 4. A validação, perguntamos ao final, à pessoa que colaborou com a pesquisa: "Ao ler este texto, você sente que ele expressa a verdade daquilo que você viveu?".

Há algum cuidado metodológico que você deve ter? Toda pesquisa fenomenológica exige a “epoché relativa” (ler Maurice Merleau-Ponty no livro “Fenomenologia da Percepção”; Yolanda Cintrão Forguieri em “Psicologia Fenomenológica” e em “Aconselhamento Terapêutico”, que colabora com o conceito de “envolvimento existencial”; Heidegger também transcende ao conceito husserliano de epoché).

Na "transcriação empática", o risco é a própria voz do cientista abafar a voz do entrevistado – por isso o compromisso e a ética são indissociais, e nisso a Educação Especial numa perspectiva nos ensina muito. A inclusão é uma efetiva e concreta postura ética. Um limite é que a empatia significa conectar-se com o sentimento do outro, e não projetar os seus sentimentos no relato dele – é um estado de ser-com. O texto deve ser o espelho da experiência dele (dessa Alteridade de ser), refinado pela sua própria sensibilidade de cientista fenomenológico-existencial na compreensão do outro. Compreender é “com+preender”; aprender (ou apreender) como-o-outro acerva dele mesmo, mas sob “minha percepção”, percepção do cientista fenomenológico-existencial ou fenomenológico.

O método fenomenológico (puro) e o método fenomenológico-existencial está no foco filosófico e na forma como compreendem a relação entre o ser humano, o outro, os outros, as coisas – no/do mundo: enquanto o primeiro busca descrever as “essências puras da consciência” (com base em Edmund Husserl), o segundo enfatiza a “experiência vivida” e o “sentido da existência concreta” de um ser inserido no mundo (com base também em Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty), ser-no-mundo.

A “transcriação empática”, inspirando-se em Forghieri (2001; 2007) impõe duas atitudes fenomenológicas indissociadas o “envolvimento existencial” (predominante, tem momento), e “distanciamento reflexivo” (tem momento que predominada). Os dois movimentos acontecem paralelamente, mas com energias e potências diferencias.

Na “transcrição empática” o pesquisador fica atentivo ao o ”que é” e ao “como é” ser-no-mundo, descrevendo a “experiência vivida” (tema do método fenomenológico), sem preocupar-se com hipótese (ainda que possa fazê-lo como em Simone de Beauvoir, in Lemos, 2023; e Virgínia Moreira, 2004), sem pretender levantar uma tese, já que o leitor possa fazê-lo (ainda que Petrelli, 2000 - recomende fazer e como).

Propomos, com esse tipo de “transcriação empática”, algo que nos (co)move a discutir esses dados, em uma análise existencial-fenomenológica no sujeito real e concreto, ser-no-mundo que é, da Educação (Especial) Inclusiva e Saúde (Hospitalar, Domiciliar, Escolar). Nossa disposição aí-aqui-agora não é descrever “a” essência, quando muito, uma “essência existencializada”, efêmera, inclusiva, sempre em fazimento “modos de ser ser-sendo si-mesmo com o outro no mundo”. Descrevemos cientificamente o significado da “experiência vivida”, sem nenhuma pretensão à uma neutralidade positivista, que tem seu valor em outras metodologias como a experimental médica, por exemplo. Nossa proposta é uma oposição, um texto provocativo e sensível ao humano.

Uma pesquisa que estuda a experiência vivida focando nos significados em vez de aplicar a epoché estrita (o isolamento/suspensão dos pressupostos) afasta-se da fenomenologia transcendental clássica (Husserl) e alinha-se à fenomenologia hermenêutica, por exemplo. A importância dessa abordagem está em entender que a experiência humana não ocorre em um vácuo, mas é sempre interpretada, ser-no-mundo que somos.

Eis as características dessas perspectivas, sempre mais do que uma: 1- A REALIDADE: esse método, reconhece o cientista fenomenológico-existencial como parte do processo – ele integra o vivido no momento da produção (e coleta) de dados; o método integra as vivências do pesquisador na análise (e produção dos dados); enriquece a interpretação (ou analítica fenomenológico-existencial); tem uma postura mundana, de um ser humano envolvido com esse mundo real e concreto, e então emerge uma forte oposição, que para nós é uma ilusão, a de que há “neutralidade absoluta” (que não existe, nesse método). 2. A SOCIEDADE, CULTURA E HISTÓRIA: considera o contexto cultural (social e histórico) do sujeito que colabora com nossa pesquisa; valoriza o momento histórico da vivência – mesmo o passado e o sonho com um futuro, ocorre no aqui-e-agora; compreende que o sentido (da vida) e o significado muda com o tempo, em espaços diferenciados; considera, como algo potente, a bagarem intersubjetiva (psicossocial) das pessoas. 3. A HERMENÊUTICA: destaca como as pessoas narram suas vidas; analisa as metáforas (e outras literaturalizações) usadas pelos participantes da pesquisa; assume que compreender já é interpretar; busca o sentido oculto no discurso textual; 4. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA COTIDIANA: facilita estudos em áreas como saúde e educação (especial) na saúde e nesse complexo âmbito, como o das Classes Hospitalares, e atendimentos educacionais em ambientes domiciliares, seara do Grufei; gera insights acionáveis para intervenções sociais, psicossociais, educacionais pedagógicas, pedagógico-sociais etc.; conecta a teoria diretamente à prática cotidiana; pode evocar potentes empatias pelas histórias narradas e pontuadas em seus contextos em uma ligação do ser com o mundo, ser-no-mundo.



[1] A produção desse texto científico deu-se entre 1999-2000, quando eu era aluno doutorado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Encontrei esse texto hoje: Vitória, ES.: 29 de agosto de 2026.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Duelo de duas grandes atrizes, e estrelas...

Débora Duarte ganhou o Troféu Roquete Pinto por essa interpretação em Beto Rockfeller (1968/9). Bete Mendes era namoradinha do Brasil e enfrentava, paralelamente, problemas com o governo militar da época, que depois ela denunciou torturas físicas. Eu era fã (amava) o Luiz Gustavo, Plínio Marcos e o ator que fazia papel de Carlucho, o ator Rodrigo Santiago. A atriz que fazia Maitê era outra estrela, a atriz Maria Della Costa... Tantos atores bons... Quanta saudade, eu sempre digo que assisti a todos os episódios... Recordo que a lente (câmera) focava nos detalhes corporais de Beto e Vitório, insinuando algo de amizade com benefícios (risos)... Cenas, longas, onde o personagem passeava em alguma praça cheias de árvores e flores, sol e sombra - de São Paulo, o capítulo quase todo era assim, recordo desse estar de perdidão (e devotamento) a atriz Bete Mendes, uma burguesa de sobrenome, mas decadente economicamente. Recordo de Débora Duarte, numa cena de festa na sua mansão no Murumbi, imitando Wanderléa, quando ela cantou só o começo: "Pare, agora!". Nessa cena (que postei, retirada do You Tube) ela cita uma música, na época sucesso, de Roberto "é meu, é meu, é meu" , de 1968 para o álbum "O Inimitável". Obra de arte subversiva, um marco das telenovelas brasileira, um divisor de águas, pois antes as narrativas eram mais fantasiosas recorrendo a temas estrangeiros e melodramas, e depois o tom passou a ser coloquial, do ordinário do tempo-espaço, temas nacionais, com as ilusões e fantasias, mas sem recorrer a personagens de reis espanhóis e ingleses, ciganas perdidas e ladras, toureiros espanhóis, marquesas fechadas em seminários santos, máfia estadunidense, atores brancos pitando o rosto para representar um personagem negro etc. Exemplos, independentes de terem sidos (ou não) boas telenovelas: Sangue e Areia, Casaco de Vison, Direito de Nascer etc. Note bem, não falo de narrativas estrangeiras da grande literatura, mas do próprio folhetim, que é literatura, mas em uma outra dimensão. Falo da necessidade dos brasileiros em encontrar histórias do seu cotididiano, produzindo maior projeção e identificação, só isso.

 "PRIVAÇÃO EXISTENCIAL"

PERGUNTO: O "que é" e "como é" a "privação existencial" conceito proposto por Heidegger nos Seminários de Zolikon para substituir outros termos como patologia psicológica, psicopatologia e ou doença emocional sempre carregados de estigmas, preconceitos, estereótipos e discriminações?
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A privação existencial é o cerceamento da abertura do ser humano para o mundo, substituindo a ideia tradicional de "doença" por uma leitura filosófica e ontológica do sofrimento.
Nos Seminários de Zollikon, realizados com médicos e psiquiatras na Suíça, Martin Heidegger discutiu com Medard Boss uma nova forma de entender os problemas psíquicos e físicos.
Para ele, o sofrimento não deve ser visto como uma avaria mecânica ou um defeito puramente biológico do corpo.
O que é a Privação Existencial?
Uma restrição do modo de ser: O ser humano (Dasein, ou "ser-aí") existe estando lançado no mundo e aberto às suas relações. Quando ocorre o sofrimento, essa abertura se contrai.
A saúde como presença e a doença como falta: A saúde plena é a capacidade de o indivíduo se relacionar de forma fluida com a realidade. A chamada "doença" é, na verdade, a privação desse estado de liberdade e abertura.
Como ela é na prática?
Fechamento existencial: O indivíduo perde a flexibilidade para responder aos acontecimentos da vida. Ele passa a habitar o mundo de maneira rígida, defensiva ou empobrecida.
Distorção do tempo e do espaço: A pessoa com privação existencial vivencia o tempo e o espaço de forma travada. Um exemplo clássico é o trauma ou a depressão, onde o passado doloroso domina o presente e bloqueia as expectativas de futuro.
Perda do poder-ser: O ser humano deixa de experimentar suas verdadeiras potencialidades de escolha e se restringe a um modo de existência limitado.