COISIFICAÇÃO DA PESSOA HUMANA*
Estamos no mês de abril de 2020, no município de Sinop, no Mato Grosso.
Um homem chamou um morador de rua até o carro, fingindo que daria dinheiro. Depois conhecido - até internacionalmente, esse homem da rua é Anderson Zahn. Quando Anderson se aproximou, ele perguntou quanto conseguia ganhar por dia e, em seguida, deu um tapa em seu rosto. Quem desferiu esse tapa é Adonias Correia de Santana.
O homem que agrediu é um empresário bem-sucedido economicamente. O motorista, que filmava a cena, também - de nome Hildebrando José Pais dos Santos. E isso torna tudo ainda mais grave: não foi um impulso do momento. Eles planejaram, filmaram (executam o plano) e transformaram a humilhação de uma pessoa vulnerável em entretenimento (fizeram uma avaliação).
O vídeo caiu na internet, viralizou e causou revolta. A Polícia Civil investigou o caso e, depois, a Defensoria Pública entrou com uma ação contra os dois.
Na delegacia, eles disseram estar arrependidos.
Mas fica a pergunta: arrependidos do que fizeram ou arrependidos porque o vídeo se tornou público? - nos reporta Calabrez
Esse caso mostra um lado sombrio do comportamento humano. A ciência chama um dos mecanismos envolvidos de "desengajamento moral".
O desengajamento moral é o processo psicológico em que uma pessoa racionaliza e justifica ações prejudiciais ou imorais, permitindo-se agir contra seus próprios princípios sem sentir culpa ou remorso - não assume a responsabilidade por suas escolhas, culpando sempre o outro, a vítima. O psicólogo do comportamento (como modelo) Albert Bandura produziu esse terrmo para explicar como pessoas comuns conseguem cometer atos cruéis ou antiéticos mantendo uma boa imagem de si mesmas.
O desengajamento moral acontece por meio de reestruturações mentais que afetam a forma como a pessoa enxerga o próprio ato, a responsabilidade e a vítima. Os principais mecanismos identificados por Bandura são:
Justificação moral: O comportamento nocivo é apresentado como algo nobre ou necessário para um bem maior (exemplo: "Fiz isso para proteger o grupo").
Comparação vantajosa: O ato ruim é comparado a algo muito pior feito por outros, parecendo inofensivo em termos relativos (exemplo: "Minha mentira não é nada perto do que ele fez").
Deslocamento de responsabilidade: A culpa é transferida para uma autoridade ou ordem externa (exemplo: "Eu só estava cumprindo ordens").
Difusão de responsabilidade: A culpa é diluída em grupo, fazendo com que ninguém se sinta individualmente responsável (exemplo: "Todo mundo no trabalho faz isso").
Minimização ou distorção das consequências: As consequências reais do dano são ignoradas, negadas ou tratadas com pouco caso (exemplo: "Foi só uma brincadeira, não machuquei de verdade").
Desumanização da vítima: A pessoa afetada perde o status humano aos olhos do agressor, facilitando a crueldade (exemplo: tratá-la como um animal ou um ser inferior).
Atribuição de culpa: A vítima é responsabilizada pelo próprio dano sofrido (exemplo: "Ela mereceu ser tratada assim pelo que provocou").
Esse caso me remete a um psicólogo e educador que estudei muito: Carl Rogers. Para Carl Rogers, a empatia é a capacidade de "perceber o quadro de referências interno do outro com precisão, com os componentes emocionais e significados que lhe pertencem, como se se fosse a outra pessoa". No pequeno relato, observamos o bloqueio da empatia e a instrumentalização do outro. Já outro que estudo muito atualmente, é Jean-Paul Sartre. A frase "vai trabalhar" (Anderson recebe o tapa, o agressor diz: Vá trabalhar!), dita após a agressão, revela o mecanismo que Sartre chama de má-fé — uma mentira que o indivíduo conta a si mesmo para justificar sua conduta.
Maurice Merleau-Ponty destaca que nós experienciamos o mundo através do nosso corpo, e a nossa primeira relação com o mundo é de abertura e confiança implícita. No caso o agressor chama o Anderson até ai caro para doar dinheiro, evocando à vítima um ethos de compaixão e reciprocidade - ser da generosidade. Anderson move o corpo em direção ao cadafalso (carro) pontuando ao perverso (agressor) sua vulnerabilidade de receber ajuda. A solidariedade é usada como valor distorcido. O corpo de Anderson entre em um trauma físico e existencial.
O tapa no rosto quebra violentamente essa abertura ao mundo. O rosto é a zona máxima da nossa identidade e expressão existencial. Agredir o rosto, filmar o ato e rir dele é uma tentativa de aniquilar a dignidade corporal do Outro, transformando o corpo da vítima em um mero receptor de violência descartável. Sob uma pequena e inicial percepção fenomenológico-existencial, esse caso é um exemplo radical de violência ontológica.
O agressor tenta anular a subjetividade da vítima para inflar sua própria ilusão de controle, superioridade e poder sobre a vida de outro ser humano. Isso nos leva a Levinás: o rosto (Le Visage) como epifania e revelação. Esse rosto é a manifestação da própria essência humana do Outro, e não apenas sua anátomo-fisiologia..
Normalmente, a EMPATIA funciona como um freio: dificulta que machuquemos outra pessoa. Mas esse freio pode ser enfraquecido quando alguém minimiza o dano, culpa a vítima ou deixa de enxergá-la como plenamente humana.
Esse processo é chamado de desumanização, que é o ato ou processo psicológico e social/cultural (na História) de negar a humanidade plena de uma pessoa ou de um grupo, tratando-os como "menos que humanos" ou como simples objetos, coisas. É a remoção mental de atributos essenciais da humanidade alheia, como emoções profundas, dignidade e capacidade de sofrer. Esse processo vivido cria uma barreira de indiferença ou crueldade, fazendo com que o sofrimento do outro não gere empatia, servindo para justificar abusos, discriminação, violência extrema ou genocídios ao longo da história.
Pelo caso, o processo de desumanização acontece em etapas sutis ou explícitas que moldam a forma como enxergamos o outro: cria-se categorização e rótulos; acontece o desengajamento moral (a mente dos criminosos desliga os próprios padrões éticos, autorizando-os agir com perversão, ódio e maldades sem sentir culpa ou remorso); então fica exposto a coisificação desse outro pobre, sujo, de rua, um estorvo, o objeto a ser usado na minha comédia ácida e imoral; no começo quando a popularização do vídeo ocorria a normalização da indiferença, a violência ou a falta de assistência básica que são desumanizações aceitas no cotidiano como se fossem normais ou merecidas pela vítima.
Entretanto, destaca Calabrez, a pessoa deixa de ser alguém com história, medos, sentimentos e dores. Vira apenas “o mendigo”, “o vagabundo” ou, neste caso, um objeto usado para divertir um amigo e produzir um vídeo. Sartre destacará essa coisificação do humano, assim como Freire e outros.
Sensível, Calabrez nos fala (no You Tube) de que as pessoas em situação de rua são especialmente vulneráveis a esse processo. Estudos de neuroimagem já mostraram que, diante de alguns grupos extremamente marginalizados, regiões cerebrais envolvidas na percepção do outro como alguém que pensa e sente podem apresentar respostas reduzidas. Quando você deixa de enxergar a humanidade de alguém, fica muito mais fácil humilhar, desprezar ou agredir essa pessoa. A barbaridade começa muito antes do tapa. Ela começa quando alguém deixa de enxergar o outro como gente, coisificando.
Autoconhecimento é um dos modos de ser-no-mundo da liberdade, e ser livre se tem algo concreto, tem essa subjetividade que acompanha a ação na sociedade, cultura e história. Gosto do conceito de liberdade em Sartre.
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* Quem gostava de escrever Pessoa Humana é Edith Stein.
Fonte: IA e eu acrescentei texto. Escutei tiktok muito bom de Pedro Calabrez, transcrevendo. Trouxe Roger, Merleau-Ponty, Sartre, Levinás - tudo muito citado, carecendo de aprofundamento, usei só para provocar...
Hiran Pinel, autoria (2026) Ver menos