terça-feira, 12 de junho de 2018


O MÉTODO FENOMENOLÓGICO DE PESQUISA: UM DOS MEUS CAMINHOS EM FAZER INVESTIGAÇÃO COMPREENSIVA.

Hiran Pinel, autor.

COMO CITAR ESSE ARTIGO CASO SEJA PESQUISADO E CITADO
PINEL, Hiran. Psicologia & pedagogia fenomenológico-existencial que considera o “ser no mundo”: aplicações aos estudos e pesquisas em educação especial hospitalar escolar e não escolar. Vitória (ES): UFES/ CE/ PPGE, 2018 [1]



Como eu faço uma pesquisa fenomenológica...
Em outro estudo, Pinel (2018) procura descrever alguns pormenores do método fenomenológico de pesquisa, criando vinte e quatro características. Trata-se de um texto didático.
A pesquisa fenomenológica vinda da Filosofia, ao se portar na Psicologia, Pedagogia e Educação, muda seus rumos originais. Então, o método fenomenológico que descrevemos aqui-agora é “apenas” uma inspiração advinda da Filosofia, e não é a Filosofia, mas uma Psicologia, uma Educação, uma Pedagogia.
Assim, a Psicologia Fenomenológica apregoa que na produção do seu conhecimento deve existir dois movimentos e atitudes indissociados incrustados no ser (sendo) junto ao outro no mundo do investigador: [1] o envolvimento existencial e [2] distanciamento reflexivo. Esses dois movimentos são apregoados por Forghieri (2001), psicóloga clínica nessa esfera, e uma pesquisadora de renome. Podemos sugerir que o envolvimento existencial corresponde ao que na fenomenologia se denomina de epoché ou suspensão; e o distanciamento reflexivo (reflexão significa: descrever um ou mais sentidos e ou significados) corresponde a eidos, que é o momento em que se anuncia a essência de algo ou alguém.
Mas não é apenas por aí, há mais características que descreveremos a seguir compondo um total de vinte e duas características sempre em movimentos, inclusive dialéticos, exigindo as atitudes fundamentais, envolvimento e distanciamento: [3] foca na subjetividade do outro (em movimento intersubjetivo), considerando esse “modo de ser” no mundo – “ser no mundo”, tratando-se de uma [4] essência existencializada no concreto, na história; [5] sujeito e objeto são indissociadosnão há neutralidade; [6] a “suspensão” (o envolvimento existencial; epoché) é relativa e nunca é total, isso devido o pesquisador ir a campo com o mundo em si e o outro (e as coisas do mundo) – mas isso não impede que ele tente, se esforce até (PINEL, 2018; p. 17).
Trata-se o método fenomenológico de [7] uma atitude, uma postura, uma ética, uma política (relacional) e nada de caminhos prescritos, determinados, sólidos, de uma verdade universal. E nesse sentido a [8] técnica e a tecnologia é secundária, e aqui-agora mais vale a atitude, aquilo que moverá a ferramentas, dispositivos, receituários – por isso não recomenda o uso de testes psicológicos (padronizados), mas pode usá-los corrompendo o estabelecido pelas normas padronizadas estatísticas, por exemplo. Mais? Foca na [9] experiência do outro, no experiencial (a experiência vivida) bem como favorece a [10] descrição compreensiva dessa experiência, e o termo [11] compreensão é o mesmo que empatia (com+preender). [12]. Então, será assim que o método fenomenológico está interessado em compreender, e não em explicar, analisar, interpretar – mas isso não impede de que há na Psicologia movimentos favoráveis a “alguma análise existencial ou análise fenomenológica” que é um evento muito comum na Psicologia Clínica, por exemplo. Mas falamos de um outro tipo de análise, fundamentada na compreensão. É comum que os locais onde se contrata psicólogos, e sendo eles fenomenologistas, cobrem deles diagnósticos com etiologias e prognósticos, e eles tem recorrido aos estudos compreensivos, bem aceitos pelas instituições.
Outra característica é que o método [13] não se interessa pela “causa” de nada, no máximo pode focar na [14] “motivação” de alguém, de algo – o fenômeno. Como a pessoa é ser e ser no mundo, a descrição compreensiva implica em [15] contextualizar esse sujeito na sociedade, na cultura e na história – uma subjetividade nesse mesmo mundo concreto, real – econômico, político, suas instituições, geografia, o outro, o estímulo ambiental, serviços de saúde disponíveis, educação provocadora, crítica e de qualidade etc. Mais características? No máximo o pesquisador coloca como questões de pesquisa que quase sempre pode ser assim: [16] O “que é” e [17] “como é” isso, aquilo, o vivido, o experienciado? Outra possibilidade: O método verifica os [18] aspectos contraditórios da realidade vivida (o fenômeno).
Outro dado é que uma investigação nessa esfera [19] NÃO trabalha com hipótese e ou suposição – afinal é preciso “esforçar-se” para ir a campo fazendo epoché ou suspensão e eidos. Epoché corresponde ao envolvimento existencial/ empatia e eidos ao distanciamento reflexivos – e repetimos, movimentos vividos como indissociados, interligados – a divisão é apenas didática, numa sociedade que valoriza o dicotõmico; [20] Valoriza uma escrita científica literaturalizada; [21] é por si só o método fenomenológico é uma “intervenção” (ação) de sentido, pois ninguém sai intacto de uma relação humana interpessoal de qualidade, pautada pela escuta empática, e assim que eu faço pesquisa fenomenológica, quase sempre faço ação, intervenção, inclusive com postura crítica, de engajamento; alguns dizem pesquisa de intervenção fenomenológico-existencial; [22] tanto que o método fenomenológico saído da Filosofia, portando na Psicologia, passa a ser outra “coisa”, ainda que interligado à origem. [23] Há fenomenologistas que produzem estudos fenomenológicos associados a outras metodologias de pesquisas como o estudo de caso e casos clínicos (existem clássicos estudos de casos como Ellen West, Dibs etc.), pesquisa intervenção (clássicos estudos; AMATUZZI, 2001 nos informa que toda pesquisa fenomenológica é de intervenção), pesquisa-ação existencial (há bons estudos como em Barbier), pesquisa participante, pesquisa dialética (ver “o método” de Sartre), cartografia subjetiva fenomenológica, bibliográfica, documental (clássicos – como cartas íntimas, diários, fotografias, memoriais etc.), etnografia fenomenológica (pelo menos um clássico: CEFAI, 2010), narrativas, história oral – e etc. (PINEL, 2018; p. 17); [24] é uma pesquisa eminentemente qualitativa, não focando na quantificação dos dados., cálculo de percentagem etc.; [25] alguns preferem chamar de pesquisa compreensiva ou investigação que objetiva compreender empaticamente alguém; outros de pesquisa empática – mas, em ambos os casos, o cientista deve recorrer a autores da área para definir/ conceituar compreensão e empatia como Carl Rogers, Carkhuff, Amatuzzi e outros etc. Quando se deseja dar outra nomeação recomendamos sempre incluir nessa nomeação o termo fenomenológico, existencial ou humanista-existencial, para deixar evidenciado a sua postura básica e fundamental, com autores da esfera. Mas o esperado é que o pesquisador se diga: “produzir um estudo psicológico, pedagógico e ou educacional de cunho científico fenomenológico” e na produção discursiva destaque os caminhos que vão de desvelando.

  
Como eu faço análise dos dados de uma pesquisa fenomenológica...
Nesse subcapítulo pretendo dar pistas do modo como tentarei criar tipos de análises dos dados produzidos – aqui falo dos modos de interpretar, de discutir. Os autores citados são aqueles com os quais trabalho até hoje na clínica, seja em consultório (que não mais exerço), seja em pesquisa clínica que faço até hoje, vamos dizer atendimentos clínicos, mas numa dimensão de pesquisa e de extensão e não mais em assuntando psicólogo. Prossigo também nessa tarefa de clinicar, mas o faço como um pesquisador graduado em “formação de psicólogos”, em licenciatura em pedagogia, especialização em orientação educacional, licenciado em filosofia e com doutorado em psicologia, mas não mais um profissional fiscalizado por um conselho específico, mesmo mantendo conduta ética, como fiz em consultórios, no IESBEM (hoje o extinto Instituto Espírito-Santense do Bem Estar do Menor), Juizado da Infância e Juventude (da Comarca de Vitória, ES), Hospital Doutor Dório Silva – dentre outros. Preciso destacar isso objetivando evitar conflitos desnecessários com as autarquias oficializadas, afinal tenho carga horária de 40 horas com Dedicação Exclusiva (DE).
Minha questão é: Como psicólogos que se nomeiam fenomenológicos-existenciais lidam com a chamada “análise existencial” da pessoa que procura ajuda clínica?
Aguiar (2014) falando da aplicação de testes psicológico às crianças na produção de diagnóstico psicológico em Psicologia Clínica Fenomenológica (Gestalt-Terapia), ela afirma que “se entendermos que o homem é um constante vir a ser, como encaixá-lo em uma categoria fixa, que afirma que ele é isso ou aquilo?” (p. 91). O psicólogo pode analisar colocando fala e expressões da criança que discursa sobre si mesmo a partir do vivido e proposto pelo clínico. Ele tem suas próprias questões, ele tem sua sabedoria, ele atribui significado ao seu vivido. Após vivenciar testes propostos pelo clínico, a criança será capaz de interpretar-se, é só escutá-la. Nada cada ao terapeuta na área de prescrição, pois o ser é de potencialidades e é livre para escolher o caminho que desejar trilhar. E mais, a singularidade da pessoa deve ser preservada, logo não deve ser refletida em caixas, modelos, quadrados típicos de categorias psicopatológicas presentes nos famosos DSM-4 ou DSM-5. E sobre as causas de um problema? Se reconhecemos compreensivamente que o sujeito infantil é parte integrante de um campo, logo não haverá uma única causa, mas várias e indissociadas, nada de padronização.
Monique Augras (1978), ao descrever um modo de se produzir (ação, intervenção) psicodiagnósticos, sugere um guia para a compreensão do paciente usando termos bem amplos, mas ainda assim guias gerais: a situação, o tempo, o espaço, a alteridade (o outro), a fala, a obra. O clima é anti-diagnóstico clássico e positivista, com aplicação de testes, cotação, análise padronizada e uma nomeação.
Medard Boss, discípulo de Heidegger, ao criar a psicoterapia denominada Daseinsanalyse, descreveu as características ontológicas constituintes do existir humano, os "existenciais" do homem a serem observados na clínica: 1) sua abertura original ao mundo; 2) sua temporalidade; 3) sua espacialidade original; 4) seu estado de humor; 5) seu estar-com-o-outro; 6) sua corporeidade. Também Ludwig Binwanger (GIOVANETTI, 2017) outro que estudou diretamente com Heidegger e era amigo de Boss.
A mesma coisa acontece com a proposta de uma teoria da personalidade de Yolanda Cintrão Forghieri (2001) – há um conjunto de terminologias envolvidas em um clima fenomenológico, cuja intepretação é o outro que “se diz” algo “de si” para escutar-se efetivamente.
A análise existencial recomendada na maioria dessas e as outras propostas, é a de ir pelos caminhos do processo vivido pelo paciente, indo com ele, sem produzir palavreados novos ou diferenciados, mesmo o tom de voz, a expressão corporal – o paciente fala e dá significado ao que toca na sua pele, alma, mente. Outra possibilidade é a de focar sempre naquilo mesmo que é (e foi) experienciado pelo sujeito que busca ajuda. O sentido, o aprendido, o pensado, o desejado, o raciocinado, o amado, o afetado, o linguageado, no tempo, no espaço, no cuidado, na obra produzida etc., é aí que ele se desvela, e o terapeuta descreve compreensivamente. O outro é analisado por ele mesmo, e somente ele é capaz de dizer-se que rumo anda traçando. O clínico funciona como um metafórico espelho que lhe devolve o falado, o expressado, o sentido – e não o faz necessariamente falando, ao contrário, mas escutando.
Tem ainda a terapia vivencial proposta por Tereza Cristina S. Erthal (1989) fundamentada em Kiekegaard, Husserl, Sartre, Heidegger, e depois (ERTHAL, 1994) focando centralmente em Sartre, ela indica que o psicólogo receba uma formação profissional na clínica, onde ele aprenderá: 1) captar a essência do problema; 2) vivenciar a redução fenomenológica; 3) ampliar a visão do cliente: “Se ficarmos apenas na essência do problema, a sessão fica redundante ... É preciso ampliar o campo visual para que dilate a conscientização (percepção intencional sujeito-mundo)” (p. 122-123); 4) integrando as partes, quando também se identifica “os mecanismos mantenedores do problema (entrando na autoimagem” (p. 125).
Para Ribeiro (2013) o psicólogo fenomenologista compreende o passado pelo presente (o que ocorre no set clínico), e será nesse contexto que o termo interpretar é sinônimo de descrever a realidade do paciente, tal qual acontece aqui-agora, “não numa relação causal, linear, em que o efeito explica a causa ou o passado explica o presente sem levar em conta variáveis intervenientes que afetaram, ao longo dos anos, o resultado de uma ação passada” (p. 110). Citado ainda por Ribeiro (2013) a interpretação é a significação que o psicólogo percebe na produção do seu paciente ou de um grupo deles, sendo assim “um ato perceptivo e criador, semelhante a uma interpretação dada por um diretor de orquestra na obra de um compositor” (p. 110-111). Finalmente esse autor ainda destaca a tarefa de interpretar ou guardar silêncio, escutando pacientemente o outro, e então, de modo fenomenológico-existencial conclui que é o “silêncio é, certamente preferível a qualquer palavra [falada, escrita numa pesquisa etc.]” (RIBEIRO, 2013; p. 112). Entretanto, o silêncio “não é um bem em si mesmo” (p. 112), logo para uma pesquisa haverá oportunidade para se analisar recorrendo a produção textual a partir de levantamento de Guias de Sentido (GS; PINEL, 2004), por exemplo. Um silêncio ótimo é aquele que provocará ao leitor em criar reflexões e produzir novas descobertas de sentido acerca do que lê sobre um fenômeno, uma pessoa.
Assim, descrever Unidades de Significado (US) de um conjunto de narrativas (por exemplo) pode ser o “ponto de partida das análises” (BICUDO, 2011; p. 50). Pode-se falar em Unidades de Sentido (US) na produção de Amatuzzi (2001).
Há também o que se denomina de Guias de Sentido (PINEL, 2004). Aqui o pesquisador, lendo e relendo, de modo empático, todo e qualquer texto obtido da produção de dados da pesquisa, estando ele imbuído sempre das atitudes epoché e eidos, poderá obter um ou mais GS, algo que movimenta aquela figura (GS) advinda de um fundo (GS), e que provavelmente, percebendo de modo cuidadoso, poderá anunciar a essência existencializada. Mas como bem destaca o autor, “é preciso que a descrição compreensiva abarque detalhadamente o fenômeno da pesquisa revelando o vivido, caso contrário essa descrição não é científica, não é fenomenológica” (PINEL, 2004; p. 100). Os pesquisadores não fenomenológicos, diriam produzir uma Análise de Conteúdo (AC), mas não é essa nossa meta, pois quando descrevemos US ou GS estamos nos referindo a uma postura de os (co)mover pela Psicologia Fenomenológico-Existencial. Um bom começo para escalonar, por exemplo, um GS, é atentar-se de que numa produção discursiva de um paciente ao psicólogo pode haver “duas realidades: a sua e a do mundo, que é também a sua, a qual condiciona e modifica à realidade interna da pessoa” (RIBEIRO, 2013, p. 111). De certo modo,
(...) todo o exercício de começo de análise dos dados pela criação de um ou mais GSg ou um GSg ou guia de sentido geral, e alguns GSe ou guia de sentido específicos, acaba sendo também um trabalho hermenêutico de interpretação que se vincula a compreender o sentido (norte/ rumo/ direção/ “sulear” que toma o ser sendo junto ao outro no mundo), a significação e o significado presente na produção discursiva seja ela denominada entrevista não diretiva, testemunho, depoimento, narrativa, fotografias, desenhos etc.” (PINEL, 2004; p. 102).
Gil (2017) recomenda uma análise de dados proposta por Colaizzi, também citado por Moreira (2004) qual seja: 1) o pesquisador lê a descrição de cada informante; 2) extrai, então, uma ou mais assertivas significativas – ele por marcar frases que se destacam, as mais repetidas e “recomendamos frases vitais ditas uma única vez, mas de grande sentido ou significado” (PINEL, 2004; p. 102); 3) o pesquisador formula um ou mais significados – aqui cabe manter-se fiel ao que é dito, ao mesmo tempo extrai os significados implícitos; 4) organiza o conjunto de significados em conjunto de temas – temas que revelam algum padrão ou tendência e não deve desesperar-se frente às ambiguidades, coisa humana, demasiada humana; 5) faz/ produz uma integração dos resultados numa descrição exaustiva – ou minuciosa, cuidadosa, analítica, detalhada; 6) elabora a estrutura essencial do fenômeno; 7) valida a descoberta da estrutura essencial – e em todas as etapas recorrendo sempre aos textos produzidos no campo da pesquisa, ou se for documentos (consulta-los sempre), se for um vídeo (vê-lo sempre com total atenção e memória intencional) etc.

NOTA:


[1] Um pequeno trecho do meu projeto de estágio de pós-doutorado já publicado e apresentado ao Programa de Pós-Graduação de Mestrado Profissional em Educação PPGMPE, do Centro de Educação – CE, da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, objetivando obtenção do certificado de estágio pós-doutoral em Educação, na área da Educação Especial, sob orientação/ supervisão do professor doutor Vitor Gomes.