domingo, 20 de setembro de 2026

 

PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA & FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL DO SER-NO-MUNDO

1a parte: todo texto de Bock et al (ver referência final)
2as partes: gemini com minhas muitas intervenções

PRIMEIRA PARTE

O OBJETO DA PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: O FENÔMENO PSICOLÓGICO
A Psicologia Sócio-histórica tem sua origem no século XX, seu objeto de estudo é o fenômeno psicológico e sua finalidade é problematizar algumas certezas que a Psicologia produziu desde Wundt.
O fenômeno psicológico, objeto de estudo da Psicologia, refere-se à experiência pessoal dos sujeitos. Essa definição não é simples e nem consensual.
Muitas maneiras de fazer referência a esse fenômeno se apresentam nas diferentes teorias, as quais são apontadas e criticadas pela concepção sócio-histórica por serem tomadas como algo abstrato e natural do ser humano.
Estudar e compreender o fenômeno psicológico exige que o pensemos como um processo e busquemos sua história.
Em outras palavras: na perspectiva da Psicologia Sócio-histórica, várias das teorias psicológicas compreendem o fenômeno psicológico como algo existente nos sujeitos independente de suas vivências. A experiência psicológica é dada como uma característica do ser humano que sonha, pensa, deseja, sente, está consciente ou não disso, porque sua condição de pertencimento a determinada espécie o permite. O fenômeno psicológico já estaria dado, portanto, em cada ser humano, não importando seu surgimento ou construção, mas sim seu desenvolvimento.
A Psicologia Sócio-histórica, cuja base e pressupostos se situam na teoria histórico-cultural de Vigotski,1 questionou essa concepção e propôs pensar esse fenômeno como uma experiência pessoal que se constitui no coletivo e na cultura. Para essa teoria psicológica, a subjetividade não está dada a priori, mas é uma conquista humana a partir de sua atividade e sua intervenção transformadora sobre o mundo. Estamos falando de cada um de nós, situados no “aqui e agora”, e estamos falando também de nossos antepassados humanos, pois, a estrutura psíquica e os conteúdos psíquicos foram construídos ao longo dos milhões de anos de desenvolvimento da humanidade.
Estudar e compreender o fenômeno psicológico exige que ele seja pensado como processo e, portanto, é necessário buscar sua história; isto é, o aparecimento das formas de subjetivação que apresentamos hoje tem história.
A Psicologia Sócio-histórica estuda o ser humano e seu mundo psíquico como construções históricas e sociais da humanidade. O mundo psíquico que nos constitui, não foi e nem será sempre assim, pois sua caracterização está diretamente ligada ao mundo material e às formas de vida que temos hoje nas sociedades modernas.
Ele é concebido como algo que os humanos constituíram como possibilidade devido à forma como se inseriram e atuaram no mundo. Para a teoria, foi o trabalho – atividade instrumental de transformação do mundo para garantir a sobrevivência – o responsável por essas transformações. E não só o trabalho como também o uso de instrumentos para a transformação e o fato de tudo acontecer em um coletivo de humanos. Instrumentos, trabalho, coletivo de humanos... está aí a origem.
A descoberta da ferramenta como mediação entre o humano e o mundo material acompanha e é acompanhada por uma mudança nas capacidades humanas. E, desse modo, rompe-se a relação com o imediato. Explicando melhor: como animais, nós também só utilizávamos aquilo que se apresentava como possibilidade no imediato da experiência. Utilizávamos uma vara para alcançar as maçãs nas árvores, se ela estivesse ali, ao nosso lado.
O aparecimento da ferramenta foi a possibilidade de buscar, de construir o objeto que nos permitiria alcançar as frutas. Imagine os primeiros humanos, os homo habilis, lapidando pedaços de pedra ou de ossos que seriam usados para alcançar algo, para partir algo, enfim para um uso não planejado por nossos esquemas genéticos. Agora, pensem na espaçonave que poderá levar os humanos a Marte, como o máximo do desenvolvimento de nossas ferramentas.
É disso que estamos falando. Um dia, os humanos utilizaram um osso ou uma vara para fazer algo que não estava previsto e, no século passado, abriram o caminho para as espaçonaves, ou seja, para a criação de novos instrumentos de produção de vida e sobrevivência. Agora, coloquem nessa cena outros humanos. Muitos estão ali, em bando, e vão coletivamente apresentar novas possibilidades de estar no mundo. Estava criado para aquele coletivo o que denominamos instrumento ou ferramenta.
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A IMPORTÂNCIA DA CULTURA

A cultura é a melhor expressão do avanço da humanidade. Nossas conquistas estão depositadas nos objetos e nas ideias que construímos ao longo desse tempo histórico em que nascemos e nos desenvolvemos. A cultura não é um conjunto de objetos criados pelos humanos apenas. A cultura é a humanização do mundo material. Os humanos se colocam nesse mundo e põem suas mãos e seus corpos para transformar o mundo material.
Fazemos das árvores cadernos, lápis, cadeira e muitos outros objetos; fazemos do petróleo a gasolina, o plástico, a fibra sintética; fazemos da lã o tecido; do barro, os tijolos e os potes; do ferro, o aço e depois o automóvel e a espaçonave. E conquistamos o planeta Terra e o espaço. Criamos, além dos objetos, rituais.
Criamos ideias, ciências, religiões, arte. Criamos um mundo humanizado à nossa volta. Nós, humanos, estamos em cada coisa, e em cada uma delas há trabalho humano, ideias e desejos humanos. Assim, se conquistamos a escrita, criamos objetos para isso; se conquistamos a proteção do frio, criamos objeto para isso; se criamos a estética, temos objetos para isso. Se falamos, criamos a palavra. São conquistas das possibilidades humanas de ser e estar no mundo que têm seus correspondentes em objetos. E há também os bens imateriais: as tradições, os costumes. Isso é cultura.
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Sujeito e mundo: dimensões do mesmo processo

Para a Psicologia Sócio-histórica, sujeito e mundo são âmbitos distintos criados no mesmo processo. Ao interferir de modo transformador sobre o mundo material, o ser humano estará se constituindo e construindo o mundo que tem à sua volta. Sujeito e mundo não são âmbitos/dimensões antagônicas; eles se completam e se referem um ao outro. Ao conhecer o ritual de um grupo social, poderemos conhecer muito de sua forma de subjetivação.
Ao conhecer as ideias e projetos de um ser humano, poderemos saber sobre sua sociedade e seu estilo de vida. A Psicologia é uma ciência do mundo subjetivo, mas isso não quer dizer que o material de seu trabalho esteja apenas “dentro” dos sujeitos. Um psicólogo que supera essa dicotomia tem no mundo cultural e social muitos elementos para saber dos sujeitos que ali vivem. Podemos então adotar as categorias teóricas (do campo da Psicologia cultural histórica de Gonzalez Rey) de subjetividade individual e subjetividade social, pois os fenômenos sociais estão de forma simultânea, dentro e fora dos indivíduos, isto é, estão na subjetividade individual e na subjetividade social.
A subjetividade é compreendida como um sistema integrado do interno e do externo, tanto em sua dimensão social, como individual, que por sua gênese é também social... A subjetividade não é interna e nem externa: ela supõe outra representação teórica na qual o interno e o externo deixam de ser dimensões excludentes e se convertem, em dimensões constitutivas de uma nova qualidade do ser: o subjetivo. Como dimensões da subjetividade ambos (o interno e o externo) se integram e desintegram de múltiplas formas no curso de seu desenvolvimento, no processo dentro do qual o que era interno pode converter-se em externo e vice-versa.
A subjetividade individual representa a história de relações sociais do sujeito concreto. O indivíduo, ao viver relações sociais e experiências determinadas em uma cultura que tem ideias e valores próprios, vai se constituindo, ou seja, vai construindo sentido para as experiências que vivencia. Esse espaço pessoal dos sentidos que atribuímos ao mundo se configura como a subjetividade individual.
A subjetividade social é exatamente a aresta subjetiva da constituição da sociedade. Refere-se “ao sistema integral de configurações subjetivas (grupais ou individuais), que se articulam nos distintos níveis da vida social...”4 Assim, para a Psicologia Sócio-histórica, não há como saber de um indivíduo sem conhecer seu mundo. Para compreender o que cada um de nós sente e pensa, e como cada um de nós age, é preciso conhecer o mundo social no qual estamos imersos e do qual somos construtores; é preciso investigar os valores sociais, as formas de relação e de produção da sobrevivência em nosso mundo e as formas de ser do nosso tempo.
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A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE

Entende-se dimensão subjetiva da realidade como construções da subjetividade que também são constitutivas dos fenômenos. São construções individuais e coletivas, que se imbricam, em um processo de constituição mútua e que resultam em determinados produtos que podem ser reconhecidos como subjetivos. 6 A realidade é vista como construída social e historicamente em um processo que envolve uma relação entre a objetividade e a subjetividade.
A base material que compõe a objetividade agrega subjetividade, na medida em que transformada pela ação dos humanos que atuam coletivamente. Por isso, não se pode estudar a realidade sem considerar uma de suas dimensões: a dimensão subjetiva. A relação entre o sujeito que é ativo, social e histórico e todos os fenômenos que denominamos sociais, na medida em que são construídos por estes sujeitos, é uma relação de constituição mútua.
Os aspectos de subjetividade estão postos nos fenômenos e os aspectos da objetividade, incluídas as relações com os demais sujeitos, estão postas, por sua vez, na constituição da subjetividade. Assim como afirmamos que a subjetividade é social, dizemos que a objetividade possui uma dimensão que é subjetiva. Este é o esforço para a superação definitiva da dicotomia objetividade-subjetividade produzida pela construção do pensamento moderno.
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NOÇÕES BÁSICAS DA PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA

A concepção do humano na Psicologia Sócio-histórica pode ser sintetizada como um ser ativo, social e histórico. É essa sua condição humana. O homem constrói sua existência a partir de uma ação sobre a realidade, que tem por objetivo satisfazer suas necessidades.
Mas essa ação e essas necessidades têm uma característica fundamental: são sociais e produzidas historicamente em sociedade. As necessidades básicas do ser humano não são apenas biológicas; ao surgirem, elas são imediatamente socializadas. Por exemplo, os hábitos alimentares e o comportamento sexual são formas sociais e não naturais de satisfazer necessidades biológicas.
É um processo de transformação constante das necessidades e da atividade dos homens e das relações que eles estabelecem entre si para a produção de sua existência.
Por meio da atividade, o ser humano produz o necessário para satisfazer essas necessidades. A atividade de cada indivíduo, ou seja, sua ação particular é determinada e definida pela forma como a sociedade se organiza para o trabalho. Entendido como a transformação da natureza para a produção da existência humana, o trabalho só é possível em sociedade. É um processo pelo qual o ser humano estabelece, ao mesmo tempo, relação com a natureza e com os outros indivíduos – relações que se determinam reciprocamente.
Portanto, o trabalho só pode ser entendido dentro de relações sociais determinadas. São essas relações que definem o lugar de cada indivíduo e a sua atividade. Por isso, quando se diz que o ser humano é ativo, diz-se, ao mesmo tempo, que ele é um ser social.
A ação do ser humano sobre a realidade que, obrigatoriamente, ocorre em sociedade é um processo histórico. É uma ação de transformação da natureza, que leva à transformação do próprio indivíduo.
Quando produz os bens necessários à satisfação de suas necessidades, o ser humano estabelece novos parâmetros na sua relação com a natureza, o que gera novas necessidades, que também deverão, por sua vez, ser satisfeitas.
As relações sociais nas quais ocorre esse processo modificam-se à medida que se desenvolvem as necessidades humanas e a produção que visa satisfazê-las.
É um processo de transformação constante das necessidades e da atividade dos homens e das relações que eles estabelecem entre si para a produção de sua existência.
Esse movimento tem por base a contradição: o desenvolvimento das necessidades humanas e das formas de satisfazê-las, ao mesmo tempo em que só são possíveis diante de determinadas relações sociais, provocam a necessidade de transformação dessas mesmas relações e condicionam o aparecimento de novas relações sociais. Esse processo histórico é construído pelos indivíduos, e é esse processo histórico que constrói os seres humanos. Assim, o ser humano é ativo, social e histórico.
O ser humano concreto
A Psicologia deve buscar compreender o indivíduo como ser determinado histórica e socialmente. Esse indivíduo jamais poderá ser compreendido senão por suas relações e seus vínculos sociais, pela sua inserção em determinada sociedade e em um momento histórico específico. O ser humano existe, age e pensa de certa maneira porque existe em dado momento e local, e vive em determinadas relações.
A Psicologia deve buscar compreender o indivíduo como ser determinado histórica e socialmente. A consciência humana revela as determinações sociais e históricas do ser humano – não diretamente, de maneira imediata, porque não é assim, mecanicamente, que se processa a consciência.
As mediações devem ser desvendadas, pois passam pelas formas de atividade e relações sociais, pelos significados atribuídos nesse processo a toda realidade na qual os seres humanos vivem. É necessário conhecer além da aparência, buscando a essência desse processo, que revela o movimento de transformação constante a partir da contradição, entendida como princípio fundamental do movimento da realidade.
Assim, para conhecer o ser humano, é preciso situá-lo em um momento histórico, identificar as determinações e desvendá-las. Para entender o movimento contraditório da totalidade na qual se encontram os indivíduos, deve-se partir do geral para o particular, para o processo individual de relação entre atividade e consciência. É necessário perceber o singular e seu movimento como parte do movimento geral e, ao revelar essas mediações, compreender não só o geral, mas o particular. É dessa forma que o indivíduo deve ser entendido pela Psicologia fundamentada no materialismo histórico e dialético.
As categorias de análise da psicologia sócio-histórica
A Psicologia Sócio-histórica utiliza algumas categorias de análise que correspondem a essa forma de ver o processo e o movimento humanos:
1 atividade,
2 consciência,
3 identidade,
4 afetividade,
5 linguagem,
6 sentido e...
7 significado.

ATIVIDADE

A atividade é a unidade básica fundamental da vida do sujeito material. É por meio da atividade que o ser humano se apropria do mundo, ou seja, é ela que propicia a transição daquilo que está fora do ser humano para dentro dele. Pense na criança, na qual isso tudo fica mais evidente.
Ela se apropria do mundo engatinhando, andando ou percorrendo com os olhos o ambiente circundante. Ela manuseia os objetos, os desmonta e monta (infelizmente, às vezes compreendemos isso como destruição), balança, lambe, ouve, vê, enfim, do ponto de vista da Psicologia Social, coloca-os para dentro de si, transforma-os em imagens e em ideias que passam a habitar seu mundo interno.
A prática humana, ou como estamos chamando aqui a atividade humana, é a base do conhecimento e do pensamento do ser humano. Estamos considerando que os indivíduos apresentam uma necessidade de manter uma relação ativa com o mundo externo.
Para existirmos, precisamos atuar sobre o mundo, transformando-o de acordo com nossas necessidades. Ao fazer isso, estamos construindo a nós mesmos. Em outras palavras, o ser humano constrói o seu mundo interno à medida que atua e transforma o mundo externo.
Ambos – mundos externo e interno – são, portanto, imbricados, pois são construídos em um mesmo processo, e a existência de um depende do outro. Atuar no mundo é uma propriedade do ser humano, isto é, a atividade é uma das suas determinações.

CONSCIÊNCIA

A consciência humana expressa a forma como o ser humano se relaciona com o mundo objetivo. As aranhas constroem suas teias e reagem à vibração nelas produzidas por insetos que ficam presos às teias. Essa é a forma como as aranhas reagem ao mundo externo. As abelhas, os pássaros, os peixes e todos os animais apresentam uma maneira específica de relação com o mundo. O ser humano também apresenta o seu modo de reagir ao mundo objetivo: ele o compreende, isto é, transforma-o em ideias e imagens e estabelece relações entre essas informações, de modo a compreender o que se produz em seu ambiente. A consciência é assim, um saber. Nós reagimos ao mundo buscando compreendê-lo.
A consciência não se limita apenas ao saber intelectual. Ela inclui o saber das emoções e sentimentos, o saber dos desejos, o saber do inconsciente. Como modo de reagir ao mundo, a consciência está em permanente movimento.
E como ela surge?
A consciência humana é produto das relações sociais que os seres humanos estabelecem. Sem dúvida, foi necessário o aperfeiçoamento do cérebro humano para que ele se tornasse capaz de pensar o mundo por meio de imagens, símbolos e de estabelecer relações entre os objetos do mundo, tornando-se até mesmo capaz de antecipar-se a acontecimentos da realidade (a previsão meteorológica, por exemplo).
Mas considera-se que somente o aperfeiçoamento do cérebro não seria suficiente para propiciar o surgimento da consciência humana, ou melhor, que esse aperfeiçoamento não seria possível se não houvesse condições externas ao homem que propiciassem isso, que o estimulassem.
Nessa abordagem psicológica, essas condições externas são: trabalho, vida social e linguagem. A consciência como produto subjetivo, como apropriação pelo homem do mundo objetivo se produz em um processo ativo cuja base/origem é a atividade sobre o mundo, a linguagem e as relações sociais. O ser humano encontra um mundo de objetos e significados já construído por outros homens.
Nas relações sociais, ele se apropria desse mundo cultural e desenvolve seu “sentido pessoal”. Produz assim sua compreensão sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre os outros. Essa compreensão é construída no processo de produção da própria existência, cuja matéria-prima é a realidade objetiva e a realidade social. Ela é absolutamente particular porque é resultado do seu trabalho.
E agora é possível perguntar: como é possível estudar a consciência dos indivíduos se ela é “invisível” e não tem uma forma física, concreta?
A consciência é estudada por suas mediações. No mundo observável, vamos encontrar, por exemplo, as representações sociais veiculadas pela linguagem que são expressões da consciência. Quando alguém discursa no Congresso Nacional ou simplesmente fala sobre qualquer assunto – como o desmatamento da Amazônia ou sua satisfação quanto à última refeição –, está se referindo ao mundo real, expressando sua consciência por meio de representações sociais.
A representação social é o conjunto de ideias que articula os significados sociais; ou seja, o sentido construído coletivamente para o objeto ao qual nos referimos, agregado de sentido pessoal.
Ela envolve crenças, valores e imagens que o indivíduo constrói no decorrer de sua história pessoal, a partir de vivências na sua coletividade.
A consciência é o saber intelectual, o saber das emoções e sentimentos, o saber dos desejos, o saber do inconsciente.

IDENTIDADE

A identidade compõe com a atividade e a consciência as categorias básicas do psiquismo e refere-se à compreensão que o sujeito faz sobre si mesmo. Reúne na consciência as ações, os projetos, as relações, as noções e os julgamentos sobre si. É o que permite ao sujeito saber-se único, identificar-se com o que faz e vive, reconhecer-se.
Em uma noção de mundo em movimento, a identidade aparece, nessa teoria, como metamorfose. A concepção de “identidade como metamorfose” foi desenvolvida por Antônio da Costa Ciampa.10 Para o autor, o indivíduo é, antes de tudo, ação, atividade sobre o mundo; e, como produto da atividade que ocorre na relação como os outros, surgem personagens que são manifestações empíricas da identidade. Portanto, nas atividades e nas relações, o indivíduo vai se apresentando e se modificando. Sua identidade é metamorfose.
Assim, o movimento do sujeito é de transformação, mantendo uma unidade entre o pensar, o ser e o agir. A essa unidade, Ciampa nomeou de mesmidade do sujeito perceber as determinações externas e se colocar em relação a elas, sem negar o movimento, sem impedir as transformações que a vida provoca, mas que não é uma mudança imposta, na qual o sujeito fica à mercê das determinações: o sujeito é ser ativo que transforma o mundo, esse mesmo mundo que o transforma.
Ciampa analisa a reposição da identidade como mesmice de mim. Isso acontece quando o sujeito se fixa em uma forma de apresentação de si, impedindo que o novo lhe traga mudanças possíveis. O sujeito quer, ou é pressionado, a manter-se da forma como se apresentou um dia, repondo sua identidade. Aqui há também um movimento que é conservador de uma identidade uma vez posta e que passa ser reposta, dando a impressão de que não há movimento.
Por fim, o autor toma a existência concreta como uma unidade da multiplicidade. As variadas vivências que temos, os vários momentos e as diversas pessoas que nos cercam e conosco se relacionam, além das várias atividades que desenvolvemos, tornam nossa identidade algo múltiplo. Somos uma unidade da diversidade, da multiplicidade. E quando nos manifestamos em um lugar, em relações e atividades específicas, expressamos parte de nós, ou seja, dessa totalidade que somos.
Aparecemos aos outros como representação de nós (uma totalidade parcial de nós), e deixamos de expressar, naquela oportunidade, outras possibilidades que também nos pertencem como possibilidades (e que compõem nossa totalidade como sujeitos), mas que naquele momento não se expressam. Nestas experiências, vamos reorganizando nosso ser, nossa identidade, modificando-a com as possibilidades oferecidas pelas situações e relações sociais.
São mudanças que acontecem sempre e se acumulam como quantidade de mudança até que uma transformação (mudança de qualidade) possa surgir. Aqui queremos apenas dar uma ideia do movimento que ocorre com os sujeitos, um movimento de expressão e transformação, sem que se perca a identificação com tudo isso que reconhecemos ser parte de nós, por isso a possibilidade de pensar a identidade como metamorfose. Transformação constante que permite mudança sem que percamos a identificação, ou seja, o saber-se um determinado sujeito, podendo mesmo afirmar “um dia eu fui assim”.
As variadas vivências que temos, os vários momentos e muitas e diversas pessoas que nos cercam e conosco se relacionam, além das várias atividades que desenvolvemos, tornam nossa identidade algo múltiplo.

LINGUAGEM

A linguagem é um instrumento importante para nossa expressão e para formar nossa consciência. A linguagem, portanto, o instrumento fundamental nesse processo de mediação das relações sociais, na qual o homem se individualiza, se humaniza, apreende e materializa o mundo das significações que é construído no processo social e histórico. 11
Para a Psicologia Sócio-histórica (assim como para Vigotski), a linguagem não é simples reflexo do pensamento, como muitas vezes costumamos imaginar. Linguagem e pensamento formam um par dialético, constituído nas atividades de transformação do mundo.
A palavra não é reflexo do pensamento, mas com ele compõe uma totalidade. O pensamento se transforma para se realizar em palavra e essa transição contém processos de significação, ou seja, a constituição de sentidos e significados, que veremos a seguir.
A linguagem permite a comunicação, processo essencial à constituição do que chamamos espaço social ou coletivo. O significado da palavra, que também é fenômeno do pensamento, é o amálgama dessa articulação.
Palavra sem significado é som vazio e este significado é conceito e generalização e, neste sentido, trabalho do pensamento. Pensamento e linguagem estão unidos pelas significações que também são construções coletivas.
Esta articulação entre pensamento e linguagem é essencial no processo de humanização do animal homem, pois transforma-o em ser social.

RELAÇÕES SOCIAIS (AFETO)

As relações sociais têm enorme importância para a teoria da Psicologia Sócio-histórica. Os vínculos que se constituem vão permitir determinadas experiências.
Em nossas vivências, somos afetados – no sentido de afetividade – de alguma forma e fazemos nossos registros emocionados, carregados de afeto.
O mundo psicológico como um mundo de símbolos, imagens, sensações e emoções vai se organizando em nós e permitindo a formação da consciência.
A linguagem é um dos mais importantes veículos de transporte do campo objetivo para o campo da subjetividade e viceversa.

SENTIDOS

A categoria sentidos foi utilizada por Vigotski desde suas primeiras obras. Ele conceitua sentido como um agregado de fatos psicológicos que estão registrados pelo sujeito, portanto, agregam afeto, imagens e sensações resultantes da experiência com uma palavra.
[...] o sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como se sabe, em contextos diferentes a palavra muda facilmente de sentido. O significado, ao contrário, é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos [...]. 12
O sentido emerge na consciência e é aspecto central da subjetividade, pois, como afirma González--Rey, 13 é ele que “define o que o sujeito experimenta psicologicamente diante da expressão de uma palavra. O sentido articula de forma específica o mundo psicológico historicamente configurado do sujeito com a experiência de um evento atual”. O sentido marca a passagem da compreensão da “psique natural” para uma compreensão da psique como histórica e social. “A produção individual de sentido tem sua gênese no encontro singular de um sujeito com a experiência social concreta.”14
A afirmação busca demonstrar que a vida social do sujeito não se separa de suas construções psicológicas. Toda vivência representa um processo de produção de sentidos que organiza e permite a atuação do sujeito. É, como utilizado por Vigotski em sua obra, a unidade constitutiva da subjetividade e integra a dimensão subjetiva à dimensão objetiva do mundo.
O individual e o social, o afetivo e o racional, o indivíduo e a sociedade estão integrados em um mesmo processo, em que é possível, como escolha e abordagem científica, enfatizar o âmbito individual – a psicologia – ou o âmbito social – a sociologia ou economia, por exemplo.

SIGNIFICADOS

Os significados também se constituem como categoria. São mais acessíveis, pois são mais duradouros e objetivos. Estão consensuados no coletivo, possibilitados pelos sentidos e, ao mesmo tempo, fazem parte dos sentidos. São “sentidos” coletivos. Assim, os significados estão postos/impregnados nas palavras e podem estar até dicionarizados. Sentidos e significados são construídos no processo de interação social e são os “sócios” que podem garantir a existência dos significados.
Dessa forma, a dimensão subjetiva – sentidos e significados – dos fenômenos são coletivos. Estamos interessados em entender como os fatos que ocorrem na relação entre os humanos na sociedade, constituindo fenômenos que chamamos de sociais, estão representados ou convertidos em subjetividade.
O aspecto que interessa está nas formas de sentir, de se comportar, de relatar, de registrar de cada um e do coletivo, está nas leis, nas regras sociais, nos valores; está em cada (e todos) espaço e âmbito da sociedade. Está em um aviso, uma placa indicativa, no livro, no filme ou em uma notícia do jornal; está na educação que a criança e o adolescente recebem da família e da escola; está na forma de participação social e política. Enfim, está no espaço de intersubjetividade, como parte integrante de cada fenômeno social. É a dimensão subjetiva dos fenômenos sociais.
Seres humanos atuam sobre o mundo transformando-o e transformando-se.
A intenção aqui não é aprofundar essas categorias, mas demonstrar que a Psicologia Sócio-histórica tem um conjunto teórico que é compatível com seus pressupostos epistemológicos. Seres humanos atuam sobre o mundo transformando-o e transformandose. Atividade, consciência, identidade, linguagem, significados e sentidos são categorias relevantes utilizadas por pesquisadores, estudiosos e profissionais para fazer sua leitura da realidade e dar visibilidade à dimensão psicológica, subjetiva que a realidade possui.
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A Psicologia Sócio-histórica enfatiza a importância de o profissional se posicionar frente à realidade. O psicólogo não é um sujeito neutro, é um profissional que se compromete com a construção de condições dignas de vida. Psicologia e política não se separam. A política é parte integrante do fazer dos profissionais; por isso a Psicologia Sócio-histórica tem como um de seus debates importantes o compromisso social que a psicologia deve manter com a sociedade em que se insere e na qual trabalha.
A psicologia sócio-histórica, por sua vez, propõe, fundamentada no método que alia conhecimento, prática e posicionamento, que se busque as condições para a realização do indivíduo como sujeito histórico, portanto, reconhecendo seu vínculo com a coletividade e seu compromisso com a transformação social. 15
FONTE: BOCK, Ana Mercês Bahia ET AL. PSICOLOGIAS. EDITORA BRASILIENSE. 2018. 15a EDIÇÃO. VERSÃO E-BOOK
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SEGUNDA PARTE


QUAIS OS CONCEITOS DE "SER HUMANO", "MUNDO", "PROBLEMAS HUMANOS" E "SOLUÇÃO DESSES PROBLEMAS" POR DUAS PSICOLOGIA, A FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL E A SÓCIO-HISTÓRICA-CULTURAL?

A Psicologia Fenomenológico-Existencial e a Psicologia Sócio-Histórico-Cultural partem de matrizes filosóficas distintas — a primeira ancorada na fenomenologia e na ontologia existencial (como Heidegger, Husserl e Sartre), e a segunda no materialismo histórico-dialético (como Vygotsky, Luria e Leontiev). Essa divergência epistemológica molda diretamente a visão de cada abordagem sobre o ser humano, o meio, o sofrimento e a superação dos conflitos.

1. Psicologia Fenomenológico-Existencial

Ser Humano
O ser humano é concebido como Ser-no-mundo (Dasein). Não é uma substância fixa, uma essência pré-determinada nem um mero produto do ambiente, mas um vir-a-ser constante, caracterizado pela liberdade, abertura, temporalidade e responsabilidade. O ser humano é um projeto lançado no mundo, lançado à necessidade de dar sentido à própria existência e fazer escolhas diante da angústia da liberdade.
Mundo
O mundo não é um receptáculo físico externo nem um objeto passivo de observação. É a rede de significados e relações em que o ser humano já se encontra engajado (horizonte de sentido). O mundo só existe na medida em que é vivenciado e significado pela consciência humano-existencial; não há separação rígida entre sujeito e objeto, mas uma correlação indissociável (intencionalidade).
Problemas Humanos
Os problemas e o sofrimento psíquico surgem do confronto com as dadas da existência (morte, isolamento ontológico, falta de sentido e a angústia da liberdade/escolha), ou da inautenticidade. A inautenticidade ocorre quando o indivíduo se esquiva de sua responsabilidade existencial, refugia-se no "impessoal" (no que os outros fazem ou dizem), ou reifica a si mesmo (trata-se como uma coisa determinada pelo destino, biologia ou passado, abdicando de seu projeto de vir-a-ser).
Solução dos Problemas
A superação ocorre pelo resgate da existência autêntica e da apropriação da liberdade. Por meio da reflexão e do encontro terapêutico, o indivíduo clareia seus modos de ser no mundo, assume a responsabilidade por suas escolhas e constrói sentidos próprios (vontade de sentido), reapropriando-se do seu projeto existencial e aprendendo a conviver com a angústia inerente à condição humana.

2. Psicologia Sócio-Histórico-Cultural

Ser Humano
O ser humano é compreendido como um ser social e histórico, constituído na e pela práxis. O indivíduo não nasce com uma "natureza humana" acabada; suas funções psicológicas superiores (pensamento abstrato, memória voluntária, linguagem, atenção consciente) são desenvolvidas a partir da mediação cultural. O humano é ao mesmo tempo produto e produtor da história e de sua sociedade.
Mundo
O mundo é a realidade material, social e histórica transformada pelo trabalho humano. É o universo da cultura, das instituições, das relações de produção e dos instrumentos/signos culturais. O mundo não é apenas um horizonte contemplativo de sentido, mas uma estrutura concreta carregada de contradições sociais, ideologias e condições materiais de existência.
Problemas Humanos
O sofrimento psíquico e os conflitos são gestados no plano das contradições sociais e materiais. Originam-se do alheamento/alienação, da desigualdade, do esvaziamento do sentido do trabalho e do acesso desigual aos bens culturais e materiais da sociedade. A negação das condições de desenvolvimento pleno das potencialidades humanas e a internalização de opressões sociais traduzem-se em sofrimento ético-político e adoecimento psíquico.
Solução dos Problemas
A superação dos problemas exige a tomada de consciência (conscientização) e a transformação da práxis. A resolução não é puramente individual ou introspectiva, mas envolve o fortalecimento da autonomia do sujeito por meio da apropriação dos instrumentos culturais, do desenvolvimento da atividade consciente e, em última instância, da transformação ativa e coletiva das condições sociais alienantes que geram o sofrimento.
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COMPARANDO AS DUAS PSICOLOGIAS

  1. DIMENSÃO
  2. Psicologia Fenomenológico-Existencial
  3. Psicologia Sócio-Histórico-Cultural
Ser HUMANO
1 Dasein (Ser-no-mundo), projeto, liberdade, abertura e busca de sentido
2 Ser social, histórico, constituído na práxis e pela mediação cultural
Mundo
1 Horizonte de sentido inter-relacional e vivencial
2Realidade material, histórica, cultural e socioeconômica
Problemas
1 Inautenticidade, angústia, esquiva da responsabilidade, perda de sentido
2 Alienação, contradições sociais, privação cultural e sofrimento ético-político
Solução dos problemas
1 Autenticidade, apropriação da liberdade e construção de sentido pessoal
2 Tomada de consciência, apropriação cultural e transformação da práxis
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Podemos afirmar que há relações positivas entre essas duas psicologias? Um psicólogo pode trabalhar associando essas duas psicologias?

Sim, podemos afirmar que existem relações positivas e complementares entre essas duas psicologias, e é inteiramente possível — e epistemologicamente enriquecedor — que um psicólogo atue articulando ambas na prática clínica e na pesquisa.
Embora tenham origens filosóficas distintas (a Fenomenologia/Existencialismo e o Materialismo Histórico-Dialético), elas compartilham premissas fundamentais que as distanciam radicalmente das visões reducionistas e deterministas da psicologia tradicional (como o comportamentalismo mecanicista ou o biologismo estrito).
1. As Relações Positivas e Pontes de Convergência
Antiatualismo e Antibiologismo
Ambas recusam a ideia de um "ser humano dado", com uma essência fixa, biológica ou estática. Para a abordagem Fenomenológico-Existencial, o ser humano é vir-a-ser e projeto lançado; para a Sócio-Histórico-Cultural, o ser humano é construção histórica e social. Ambas compreendem o sujeito como um processo em constante transformação.
Superação da Dicotomia Sujeito-Objeto
Nenhuma das duas abordagens isola a mente do meio:
  • Para o existencialismo, o ser é sempre Ser-no-mundo (Dasein), indissociável de seu contexto vivencial.
  • Para a psicologia sócio-histórica, a subjetividade é a internalização da objetividade (cultura, linguagem, relações sociais) e a objetivação da subjetividade através da práxis.
Crítica à Pathologização e Foco na Potência
Ambas as abordagens não encaram o sintoma ou o sofrimento como uma "anomalia orgânica" ou uma "falha individual", mas sim como uma resposta ou expressão diante de uma situação:
  • A Fenomenologia olha para o sentido e para o modo de existência que se revela na dor.
  • A Psicologia Sócio-Histórica olha para o sofrimento ético-político fruto das contradições e alienações sociais.
O Papel da Linguagem e da Significação
A significação e o sentido ocupam o centro de ambas as teorias. O sentido da existência na fenomenologia dialoga diretamente com a atribuição de significado e sentido (significado x sentido em Vygotsky) mediada pela cultura e pelas relações humanas.
2. Como o Psicólogo Pode Trabalhar Associando as Duas Abordagens?
Trabalhar associando as duas vertentes não significa criar um "ecletismo ingênuo" (misturar técnicas sem critério), mas sim promover uma integração Dialético-Fenomenológica. O psicólogo utiliza cada perspectiva para iluminar dimensões que a outra porventura enfatize menos:
A Fenomenologia amplia a Sócio-Histórica ao...
Resguardar a singularidade irredutível da experiência vivida. Dois indivíduos que vivem na mesma classe social, cultura e momento histórico não significam o mundo da mesma forma nem enfrentam a finitude ou o sofrimento do mesmo jeito. A escuta fenomenológica garante que o sujeito não seja reduzido a uma "categoria social" ou a uma "estatística histórica".
A Psicologia Sócio-Histórica amplia a Fenomenologia ao...
Inserir a historicidade e as condições materiais concretas no horizonte de sentido do sujeito. A liberdade e o projeto existencial do Dasein não acontecem no vácuo; acontecem dentro de limites de classe, raça, gênero, acesso à educação e relações de poder. A perspectiva sócio-histórica impede que o psicólogo caia na ingenuidade de achar que "tudo depende apenas da escolha individual" do paciente, desconsiderando as opressões reais do meio.
3. A Prática Clínica e Social Integrada
Na prática, a postura do profissional que articula essas visões se traduz em:
  1. Acolhimento da Vivência (Eixo Fenomenológico): Escutar o paciente a partir da sua própria perspectiva de mundo, compreendendo como ele experiencia sua angústia, suas escolhas, seus afetos e seu sofrimento sem impor diagnósticos prévios.
  2. Contextualização Crítica (Eixo Sócio-Histórico): Ajudar o paciente a perceber de que maneira a sua história de vida, a cultura em que está inserido e as dinâmicas sociais atravessam o seu sofrimento (por exemplo, percebendo o impacto da alienação do trabalho, do preconceito ou da desigualdade na construção de sua autoimagem).
  3. Práxis e Emancipação: Favorecer o resgate da responsabilidade e da liberdade de escolha (fenomenologia), que se desdobra em uma ação transformadora no mundo e nas suas relações sociais (práxis sócio-histórica).
Autores e pesquisadores na Psicologia Crítica e na Psicologia Social (inclusive no Brasil, como nas articulações entre Sartre, Fanon, Vygotsky e Martin-Baró) demonstraram que a ontologia da liberdade fenomenológica e a crítica à alienação marxista podem caminhar lado a lado na construção de uma clínica e de uma atuação comunitária profundamente alinhadas com a transformação humana e social.

Hiran Pinel, leu, fez apreciações, interferiu, acrescentou textos.