A TRAVESSIA DOS "OBJETOS INANIMADOS" PARA
A ANIMAÇÃO DA VIDA: MEMÓRIA AFETIVA.
Hiran Pinel, autor.
Vou
descrever aqui-agora, de modo (quase kkk) fenomenológico, um tema que me é
caro: o objeto ou "coisa" é descrito inanimada, mas na sua presença
com os humanos que os manipula, pode ganhar outros sentidos, significados
sentidos.
Recorro
ao sentido de "memória do vivido" com uma coisa ou objeto. Nossa
vivência com aquele determinado objeto, aqui-agora preso à nossa memória, vem à lume,
ganha potência e força. Sai com força, sem pedir licença ao sujeito da
lembrança. Tudo vem no sentido de transformar aquele objeto aparentemente frio,
coisificado, em algo cheio de afeto, amor, reconhecimento, identidade,
raciocínio, desejo, sentimentos, emoções. ódio, rancor, pensamentos, ações
corporais frente a ele e ou à sua simples lembrança.
Assim,
muitas vezes um objeto, por sua simples presença, provoca o sujeito individual
desvelando o coletivo nele, pois um único objeto pode despertar multidões.
Dando um
exemplo: a memória que temos da nossa antiga "escola primária", por exemplo,
e nós já maduros e ou idosos, justo essa memória produz identidade, ligação com
o outro, e nos diz muito acerca dos nossos modos de ser (sendo) estudante,
aluno etc. Falamos do presente, pois o passado vem com força no presente e o
reinterpretamos não necessariamente como foi, mas como aqui-agora imaginamos
como foi e como será (futuro). Então, tudo é aqui-agora. Aqui é o lugar, agora
é o tempo.
Um objeto
como "as paredes mal pintadas e descascadas" e "ursinhos de
pelúcias coloridos", por ex, são objetos inanimados. O ursinho pode até
nos recordar o animal vivo, mas o de pelúcia é um objeto. A parede é algo dura
e inerte, mas passa a ser mover de acordo com nossas memórias acerca dela - por
ex: beijamos alguém recostados naquela parede ou vemos e tocamos e sentimos uma
outra parede, e lembramos daquela original, a primeira. Um retrato é apenas um
objeto, mas se é a imagem de nosso amigo ou amante, ganha sentido de
humanidade, corpo vivo. Isso vale também para os cheiros, os gostos, os
sentidos todos...
Mas
aqui-agora focaremos as coisas e os objetos, com os cheiros, inclusive e suas
espessuras, suas texturas ao toque. Focaremos nos dispositivos, nas ferramentas
- coisas, objetos. É o passado e o futuro, mas sempre no aqui-agora, no
presente, revisto e descrito nesse espaço (aqui), nesse tempo (agora).
Qual a
percepção fenomenológica existencial de um ex-paciente-aluno hospitalar acerca
de alguns objetos com os quais conviveu na clínica? Essa pode ser uma questão para
quem estuda, como nós, a Educação Especial Hospitalar Escolar e Não Escolar.
Mas nosso objetivo com esse ensaio é outro.
Esse pequeno ensaio científico, totalmente experimental, formando um "paper"
(rascunho), objetiva estudar dois filmes, procurando compreender a importância
dos objetos nas narrativas e de como "coisas" ficam impregnadas de
afeto e de conhecimento, tudo isso na nossa percepção fenomenológica quando
aqui-agora nos recordamos deles, quando o vemos, sentimos, tocamos, cheiramos
etc.
O que é e como é um "objeto ou coisa" que marca nosso mais profundo ser sendo junto/ com o outro no mundo, e que quando vem à memória (à tona), percebemos fenomenologicamente que fez uma simbólica travessia de "coisa" para ser (que nomeamos), e então o desvelamos pelas nossas emoções, desejos, sentimentos, raciocínios, expressões corporais?
* * *
Um objeto
ganha vida, respiração, apresenta sentimentos, desejos, emoções, raciocínios,
pensamentos, ações corporais etc. Um objeto pode ficar na memória humana, e
quando visto ou lembrado é sentido, chorado, alegrado, emocionado, refletido. A
memória de um objeto pode provocar nossos movimentos, nossos modos de
solucionar um problema etc. Um objeto (ou coisa, ferramenta, dispositivo etc.)
pode fazer uma travessia do inanimado para o animado, do neutro para o amor e o
ódio, para a alienação ou libertação.
Pessoas
comuns relatam memórias afetivas e desejantes de "prédios escolares",
por exemplo. Você pode visitar sua escola, e as paredes te recordar momentos
que teve de amor com a garota, um amigo ciumento que te desejava sexualmente,
mas que você regulava o amor, por impedimentos psicossociais ou mesmo porque
você não acompanhava o desejo do outro. Você pode sorrir ou chorar visitando o
internato em que estudou, relembrar as repressões sofridas, a arrogância dos
professores - trazer para o presente, para o aqui-agora, o passado, e o que o
futuro significa. Uma pintura do internato que ainda permanece a mesma cor, o modo
como se arquitetavam no espaço as camas... A arquitetura escolar facilitou sua
aprendizagem? Há relação arquitetura e o aprender com sucesso acadêmico? A
arquitetura ajudou a produção dos desejo sexuais de quem ali dormia?
No cinema
é possível ver cenas donde o personagem "olha" para uma arquitetura,
sente-a, remexe dentro de si devido ao sentido subjetivamente, e assim você
pode encontrar satisfação ou insatisfação, alegria, tristeza, melancolia,
comédia de erros do viver etc. Mas é como se a "coisa" não fosse
neutra, pois lhe é fornecida identidade, humanidade - a presença do homem
naquela arquitetura fornece-lhe muitos significados, sentidos.
O objeto
ou coisa material é aquela ferramenta ou dispositivo que pode ser portadora de
mensagens de amor ingênuo e sexo, por exemplo - e de quaisquer outras
mensagens. No filme "Water Boyy, The Movie" (Tailândia, 2015, de
Rachi Kusonkusiri), o roteirista e diretor escolhe (intencionalmente) um objeto
cuja representação pode nos trazer o sentido de pureza e infantilidade, no
caso, um urso Panda de pelúcia, o fofinho, a coisa mais lindinha, uma cópia dos
ursinhos pandas naturais da China. É comum então que os objetos em um filme
"dizerem" muito dos personagens, e os espectadores se comovem, pois é
algo comum no existir cotidiano banal, o nosso dia a dia real... Também somos
impregnados pelos diversos sentidos de um objeto. A simples presença da
"coisa mesma objetal", seu mostramento, quase que sagrado, na cena,
pode evitar diálogos e conversas dos personagens, pois podemos, nós mesmos,
dialogarmos com a cena - dar nossa impressão e com isso o diretor consegue
maior envolvimento com a plateia, e é óbvio maior sucesso popular, imagino
aqui. Em "Water Boyy", na cena final, os dois jovens tocam o ursinho,
objeto de amor, do significado desse (amor), o companheirismo que agora se
instaura, indicando que morarão juntos em um prédio de apartamento próximo à
universidade - algo bem repetido em filmes e séries tailandeses. O urso aparece
como promessa de amor, acerto de contas, reinício de uma longa história, mantém
nossa fantasia de amor eterno... Descrevo o começo de tudo, da própria vida,
vida esta motiva pelo amor, por sua ideologia.
Em outro
filme, vemos um "palhacinho de madeira", desmontável como um
quebra-cabeça. Nesse filme, esse objeto é vital ao enredo, ele quase que move o
filme todo. Estou falando de "Love Of Siam" (Tailândia, 2007, de
Chookiat Sakveerakul).
Vemos
então a famosa "cena do presente que um amigo dá ao outro" - um
palhaço de madeira. O objeto é que move a emoção de todo o filme "Love Of
Siam". Repetimos que falamos de um "palhaço de madeira" que pode
ser desmontado, parte por parte, que se compra separadamente, algo como uma
peça de quebra-cabeças, repetimos. Ou seja, o palhacinho não é apenas um brinquedo,
ele começa exigindo que o monte/ componha, é preciso, pois, envolvimento para
vê-lo completo. No palhacinho sempre falta, falta-lhe uma parte - de fato,
falta-lhe um nariz vermelho, que o amigo não conseguiu encontrar ou se perdeu.
Podemos
falar de um tipo simbólico de "falta": "falta um amor que
falha", um amor sempre a se completar e que nunca consegue, um amor
impedido. Se apercebermos bem, o final da película é compatível com a
"coisa mesma objetal" em falta, em falha. Uma coisa que ao completar,
depois de muita luta e negociação da "namorada do outro que ama o
outro", termina concretamente o amor/ namoro, rompe o amor, diz adeus - e
os dois aceitarão algo como destino, que os une pela memória da "coisa
mesma". Formou-se um vínculo e depois o rompe, mas o objeto pode nos
indicar que esse amor nunca acabará, pois é um existente na memória eterna - um
nariz foi comprado na loja. Diga-se de passagem, um amor eterno enquanto
Alzheimer não chega... (kkk)
O objeto
na memória se trata do inesquecível "amor", um amor que o objeto, que
visto e sentido, trará no presente o passado supostamente feliz e melancólico
ao mesmo tempo.
Em
"Love Of Siam" se trata do amor como sofrimento, dor da paixão, a
melancolia instalada quando a alegria poderia sobreviver. O palhacinho pode
indicar o quanto nutrimos o amor da perdição, amor do sofrimento. O amor
inventado como melodrama é sustentado e mantido por nós. Uma ideologia
dominante que recusamos desmascarar. Em "Water Boyy" se trata do
começo do amor, do futuro do amor, das promessas de alegria e de prazer de
amar. Em "Love Of Siam" se trata do amor dolorido, do drama e do
melodrama, do acreditar que o amor é sangue e lágrimas, o quão belo é sofrer
por amor.
Os
objetos inanimados se transformam em vida na nossa percepção, nossa vivência e
ou experiência que tivemos/ temos com eles... Mente, corpo e alma mexem-se
todos, se misturam e "hibridizam", tudo isso dentro de nós como
"ser no mundo" que somos, em um mundo objetivo, concreto.
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Hiran
Pinel, autor.
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