domingo, 26 de junho de 2022

SUBIR NOS OMBROS E PROCURAR SENTIR ALÉM: A CORAGEM DE REINVENTAR TEÓRICOS RENOMADOS
Hiran Pinel, 26/06/2022
Há um artigo que publiquei sobre Viktor Frankl, que inicialmente onde eu não dava originalidade, não fazia uma "outra" leitura das ideias deste psicólogo e educador existencialista, ou seja, não dava minha contribuição à ciência, mas a repetia na proposta de parafrasear. Parafrasear é vital e é uma ação científica que não é fácil, pois devemos dizer ao mundo (ao leitor) o que um teórico disse ou quis dizer e se de fato tais ideias trazem implicações concretas e ou filosófico-teóricos. Um artigo bibliográfico costuma fazer isso e tem sua potencia na ciência. O que acontece? "É" (sendo taxativo) preciso "ver" se nosso objetivo se propõe "ir além", e nem sempre isso é demandado. Neste artigo meu que cito no início deste meu texto reflexivo, eu estava "muito rigoroso" (o que é rigor? ), mas meu objetivo era muito aberto e propunha "descrever o que é e como é ser (...) a partir de releituras do termo otimismo tráfico de Frankl". Ora, em propor "alternativas" e releitura, um pesquisador precisa "subir no ombro" do seu "colega o muito mais famoso do que ele" (Frankl) e tentar e (pró)curar "ir além" - "pró" (ser a favor da cura) & curar, ou seja, fazer ou ser a favor/pró com cuidado e esmero/cuidar/curar científico. É isso que Frankl quis dizer quando, de modo criativo e científico, "falou" (escreveu) que subiu "no ombro de Freud e Adler e foi além". O problema nesta descrição frankliana (especificamente "nesta") é que ele escreve de modo muito taxativo, usa muito o "é", ele afirma como se o que ele diz é uma "verdade única e universal" - apesar de não ser essa sua intenção, pois é um refinado cientista existencialista. Mas, isso de ter escrita taxativa não é só ele, ou só dele, é da maioria de seus colegas, dos nossos colegas - é também "coisa que sai de mim", tenho textos taxativos, e creio que é quase impossível escapulir disso, mas devemos sempre procurar não ser dono de uma única verdade, devemos procurar fazer isso. Uma linguagem taxativa tem muito a ver com a noção de verdade da ciência positivista que marca "toda" ciência, e posso afirmar (eu sendo taxativo) que a pesquisa experimental das áreas da saúde e da tecnologia, são também vitais para a sociedade. Mas, esse clima taxativo passa para as investigações qualitativas, e até nos mais radicais estudos fenomenológicos esse sentido aparece. Na fenomenologia também tem estudos bem ligados ao positivismo, ainda que não seja totalmente, como são os estudos da percepção psicofisiológica, por ex., que no Brasil são planejados, executados e avaliados (com sucesso) por "William" Gomes, marcado pelos primórdios de Husserl, que era matemático, é bom a gente recordar disso. Para identificar Gomes, ele é da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha com psicologia. NOTA: até nesse pequeno texto tem parte da minha escrita que estou sendo taxativo, vamos dizer que é uma "velha mania" que traz subjacentes diversos significados, inclusive autoritários, arrogantes, prepotentes, petulantes etc.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Podemos "aqui-agora", no contexto da Educação Escolar (na saúde), considerar que o profissional denominado de professor de Educação Especial é aquele que atua produzindo Atendimentos Educacionais em Ambientes Hospitalares (e Domiciliares) na sala de aula hospitalar, conhecida por classe hospitalar, ainda que esse processo ensino-aprendizagem possa ocorrer em outros espaços e tempos. A meta, parece-nos ser, que esta professora, a da Educação Especial, ensine conteúdos escolares legitimados pela cultura, objetivando a aprendizagem e o desenvolvimento das alunas (e dos alunos) com doenças graves, internadas que estão em hospitais, em clínicas, nos seus domicílios etc. Isso de ensinar conteúdos escolares dá uma identidade potente e inquestionável ao professor (em geral), e especificamente ao professor de Educação Especial também, afinal é um dos "modos (dele) de ser" professor. Já o pedagogo hospitalar, comumente, ainda que não tão solidificado assim o seu ofício, exerce tarefas fora do ensino-aprendizagem de conteúdos escolares. De modo bem conhecido, o pedagogo, ao longo de sua história interessou-se em aplicar seu trabalho na supervisão escolar da professora, na inspeção escolar focando nas legislações, na gestão da escola e na orientação educacional de alunos e seus familiares, assim como produzindo intervenções também na comunidade.


sábado, 28 de maio de 2022

 

TAREFAS DO PEDAGOGO HOSPITALAR

Hiran Pinel, autor.

O pedagogo hospitalar, graduado em Pedagogia, é um trabalhador ou profissional que produz práticas educacionais na educação escolar  e "não escolar". Na escolaridade, pontuamos um espaço físico (e ou simólico) denominado de "classe hospitalar", onde esse profissional coloca em prática seu título acadêmico de licenciado, produzindo um tipo de  atendimento educacional em ambientes hospitalares, bem como domiciliares . Já na Educação Não Escolar, ele pode também produzir práticas educacionais nas brinquedotecas hospitalares, assim como intervém em outros espaços da instituição de saúde. Este profissional pode criar práticas educacionais em domicílios, ONG's, orfanatos etc., - sempre interessado nas questões de saúde do aluno e ou aluna. Ao ser um profissional de educação, ele logo se sentirá inserido em um espaço-tempo de saúde, então também será o pedagogo hospitalar um profissional dessa esfera - profissional da educação na saúde. Quando isso é constatado, ele poderá demandar estudar e pesquisar: a relação entre Pedagogia e Saúde; os modos de trabalhar em equipes multiprofissionais da saúde; procurará socializar entre todos da instituição, a potência do seu ofício junto aos pacientes e aos próprios profissionais da área etc. (PINEL, 2021; p. 6)

Quando falamos da equipe de saúde podemos destacar essas tarefa do pedagogo: a educação e desenvolvimento do pessoal de saúde, por exemplo;  no ensino da didática para os profissionais que atuam em hospitais e que trabalham com o processo ensino-aprendizagem contido nas residências médicas, de enfermagem, de psicologia, estágios diversos etc. É muito comum, por exemplo, membros da equipe de saúde, pedir ao pedagogo hospitalar, que o ensine" como" usar o método e a técnica didática "estudo de caso", procedimento muito utilizado na prática clínica de ensino-aprendizagem na formação. Associando principalmente suas ações com as ideias de/ Paulo Freire no campo da saúde, ele mostra como suas práticas educacionais podem ser positivas nos diversos tipos de prevenção (...) (p. 6)  Há casos de pedagogo que associa Freire com os existencialismos de Viktor Frankl, de Janusz Korcazk, de Martin Buber, de Georges Gusdorf, de Claude Pantillon, Carl Rogers, Célestin Freinet - dentre outros, ainda que as raízes filosóficas tenham suas sutilezas e diferenças (...) (p. 7) os cursos de Pedagogia poderiam incrementar no currículo já proposto, a inserção, de no mínimo, duas disciplinas dessa área, mais estágio supervisionado a ser desenvolvido nessas instituições clínicas (...) a partir de sua intervenção podemos procurar conceituar o que é Pedagogia Hospitalar (p. 10).


quinta-feira, 26 de maio de 2022

UM MÉTODO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL DE PESQUISA (E DE INTERVENÇÃO) INSPIRADO EM VIKTOR FRANKL

Hiran Pinel - 12/12/2012

INTRODUÇÃO

Qual é o método fenomenológico-existencial de pesquisa (e de intervenção) que pode ser pensado-sentido-agido inspirado no psicólogo e educador existencialista Viktor Emil Frankl?

MATERIAL, MÉTODO & TEORIA

Fundamentalmente, este "paper" emergiu do artigo de Hiran Pinel, intitulado "o conceito de "otimismo trágico" de Viktor Emil Frankl: Subsídios para o Exercício do/ no Ofício Educador Social", publicado em "Psicologado.com.". Este artigo estava em um antigo site de uma revista, que foi fechada. O sítio era: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-social/o-conceito-de-otimismo-tragico-de-viktor-emil-frankl-subsidios-para-o-exercicio-do-no-oficio-educador-social

Ora, tais ideias partiram de Frankl, e então nos inspiramos nele, em: Frankl (1990, 1991; 1995). Mas, este modo de pesquisar o sentido, tem mais detalhamentos cuidadosos, que se aproximam de outras propostas de pesquisa como as de Forghieri (2003; 2012) e outros, onde o conceito de pessoa, mundo, problemas e tentativas de ação de ajuda pela via da criação de práticas educacionais e de clínica são bases teóricas para pensar-sentir-agir uma investigação de tal verve e dimensão de relevância psicossocial.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como chegar ao sentido? Como revelá-lo? Como pesquisá-lo?

Há uma via de um processo de descoberta do sentido, uma revelação de que pode tomar como primeiro passo a utilização de depoimentos, de biografia, de memorial do todo ou parte de um causo de sentido, pontuando ela mesma, o que denominamos de vivência de sentido.

No seu livro "Em busca de sentido", Viktor Frankl faz um longo depoimento acerca da sua própria experiência vivida-sentida nos campos de concentração nazistas onde esteve, viveu, sentiu... Tratam-se de espaço-tempo de onde inventou seus discursos e ou teorias - do lugar do sofrimento, o transcender se deu por sua luta em criar uma psicologia clínica, ou melhor, uma terapia e ou psicanálise existencial.

A partir daí, deste vivido, o sentido de ser (e o sentido da vida) pode ser localizado entre uma "experiência-surpresa-inusitada" como numa percepção gestáltica, ou seja, repentinamente emerge um sentido diante de nossa percepção total, inclusive nosso olhar, nosso cheirar, nosso tocar etc.

Poderemos, a partir das descrições obtidas da nossa coleta de dados, "enxergar" (sentir) e tocar em algo inédito, inusitado, uma surpresa que no desvela um sentido ou mais sentidos.

Todavia, não se trata aí de apenas revelar uma "Figura‟ que percebemos como que postada ou declarada de modo inconteste de um "Fundo‟, mas, que também é algo além à percepção gestáltica.

Ora, no caso da "percepção do sentido", podemos sentir, raciocinar e agir diante do que se nos revela, pelo que se mostra, o de que há um questionamento à descoberta imediata de uma "possibilidade" no "fundo (de uma) da realidade" - há assim uma esperança que emerge da vontade de sentido de ser na ação pela persistência e perseverança.

Neste movimento psicológico e social provocativo do ser pesquisador, o que nos parece estar efetivamente "jogado na nossa cara" é a possibilidade também da nossa arte de interferir na realidade, e isso, nem sempre é algo não imediato, mas agir é preciso, indissociado ao sentir e ao refletir ou racionar e ao corpo que fala, que sente, que revela.

Assim, como pode acontecer de experienciarmos mudanças? É demandado Sorge na espera, pois o existencialismo implica também em esperar, uma educação que espera, educação da espera. E quando essa ações que mudam acontecem? Elas só ocorrem quando há uma oportunidade implicada em necessidade e ou vontade. é demandado "vontade de sentido". Quando isso "de mudar" for possível, a surpresa mesma irá exigindo do pesquisador e o pesquisado, cuidados, auto-cuidados, delicadezas e ações até radicais, pensamentos inventivos, expressões corporais de enfrentamentos e de resiliências, um abrir a sentimentos, emoções e desejos compatíveis como nosso projetos de ser e de sonhos.

De fato, cada situação vital com que temos de lidar de modo belicoso ou não, nos (co)move a uma demanda, e será a vida que poderá nos levantar uma questão, uma pergunta. Falamos de uma interrogação que Ela (a Vida) exige de nós uma resposta, impondo-nos o "fazer algo" diante da vida provocadora, naquela situação específica indicada, pontuada, revelada.

Vamos imaginar uma pesquisa fenomenológica com a criança, por exemplo. Essa criança (ou um grupo delas), quando ela é uma pessoa que colabora com nossa pesquisa, poderemos descrever e revelar que ela atua de modo mudar o (seu) vivido, seja através do desenho, das tarefas escolares, do lúdico, do obedecer e do desobedecer, do sentir dor e alegria etc. A criança, então, pode revelar o sentido de ser do sentido da (sua) vida, e essa revel(ação) é um agir, pelo menos uma tentativa, corpo/alma/mente. O sentido emerge e se cristaliza na ação. É a ação que, ao se permitir conduzir pelo sentido, revela o próprio sentido do sentido.

PÓS-ESCRITO

Dentro de um estudo acerca do sentido (da vida) do educador e do educando, é que aparece o que poderíamos de modo inventivo denominar de objeto da Pedagogia Hospitalar. Esta Pedagogia é a própria intervenção que advém do que se denomina trabalho pedagógico e educacional hospitalar e domiciliar.

O objeto desta Pedagogia são as práticas educacionais contidas nos atendimentos educacionais em ambientes hospitalares (e domiciliares) seja quando propõe ensino de conteúdos escolares preconizados pelo Estado, que pode classicamente acontecer no espaço físico denominado de classe hospitalar, assim como ensino-aprendizagem de conteúdos não escolares, formais e ou informais.

Neste tipo de proposta da Psicologia Existencial, o que tem contado de modo indelével são as atitudes (e até habilidades que podem ser aprendidas) dos profissionais do magistério e do ensino-aprendizagem que irão (co)mover suas propostas com disposições à escuta, ao cuidado, à generosidade, à empatia etc., e reconhecendo a presença frankliana nesse processo vivido.

O objeto formal da Pedagogia Hospitalar, que pode ser uma intervenção na realidade vivida pelo educando e ou aluno com graves problemas de saúde que lhe impõem internação por longos períodos de tempo. Estas propostas de intervenção nascem do planejamento, execução e avaliação de prática educacionais que impõe a relação educação e saúde. A Pedagogia Hospitalar é uma ciência normativa, comprometida com o fazer, com o agir, mas também com o sentir, o pensar, o refletir - elaborar projetos de ser e de sonhos. Apropria-se de diversas análises de indivíduos enfermos, de grupo deles, de instituições criadas para e com eles como escolas, hospitais etc., bem como o poder e potencia da sociedade onde tudo isso se insere. A Pedagogia Hospitalar precisa de outras ciências que lhe dêem suporte para inventar e ou produzir tais práticas educacionais. Denominamos classicamente que a Pedagogia é uma das Ciências da Educação, demandando da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Biologia, da História etc.

REFERÊNCIAS

FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia fenomenológica; fundamentos, método e pesquisa. São Paulo: Pioneira, 2001.

FRANKL, Viktor Emil. et al. Dar sentido à vida. Petrópolis (RJ): Vozes; São Leopoldo (RS): Sinodal, 1990.

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 3. ed. Petrópolis (RJ): Vozes; São Leopoldo (RS): Sinodal, 1991.

 ____ . Logoterapia e análise existencial. Campinas (SP) :Psy II, 1995.

FREIRE, Paulo. Paulo Freire e os educadores de rua; uma abordagem crítica. Projetos Alternativos de Atendimento a Meninos de Rua. Bogotá: UNICEF, 1988.

____. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

____ . Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1989.FROMM, Erich. Ter ou Ser? Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.


Fonte: 
© Psicologado.com no artigo: O conceito de "otimismo trágico" de Viktor Emil Frankl: subsídios para o exercício do/ no oficio de educador social 

domingo, 17 de abril de 2022

 

O PROCESSO VIVENCIAL DE SER ESTUDANTE CEGO NA SINDEMIA DA COVID-19

Hiran Pinel, autor

12 de abril de 2022

Vitória, ES.

EM CITANDO: Favor referendar. Não cometa crime  de plágio, de qualquer jeito sempre devemos a alguém antes de nós, que pensou-sentiu-agiu, MAS cite. É fácil citar


O surto, a epidemia, a endemia, a pandemia etc., desvela, ao contrário do que se pensa, de que há mais variáveis, e não apenas uma, nas questões de saúde como na atual Covid-19, DST-HIV-Aids, influenza, hanseníase, febre amarela etc. Podemos acrescentar aqui-agora o termo "sindemia", considerado um termo mais correto em lugar do de pandemia. Mas, qual a origem do termo "sindemia"?

A palavra "sindemia" traz ao seu corpo etimológico dois vocábulos aparentemente diferenciados, mas que se completos: "sinergia" e "epidemia". Fue Émile Littré, século XIX, que intrduziu em seu "Dictionnaire de la langue française" (1872-1877) a palavra "synergie" como própria da Fisiologia: é a confluência e  competição "de ação, de esforço, entre vários órgãos (humanos), vários músculos; associação de vários órgãos para o desempenho de uma função”. Trata-se de sintetizar o que se conhece por "epidemias sinérgicas". De origem grega, "syn" =“trabalhar juntos” ou “atuar, agir com”, enquanto "demos" = população, que é usado ao modo semelhante aos termos epidemia e endemia.

Na sindemia ocorre diversas doenças, em seus múltiplos estágios, interagindo de forma e modos interdinâmicas e diferenciados, produzindo danos uns aos outros, aumentando negativamente seus efeitos sobre o organismo humano coletivo e individual destacando e desvelando direta e visivelmente seus impactos numa dimensão social, ambiental, biológico e psicológio-existencial.

Podemos falar em uma "sindemia da emergência", ela que carece de uma visão ampliada (ou holístico-existencial) quanto ao papel da Saúde Pública. Para um serviço de assistência adequada e de qualidade ao povo, onde o próprio Estado resista desbragadamente contra sua necropolítica - e isso é (im)possível, pode ser uma exigência criar e fazer uma metafórica travessia da abordagem clássica epidêmica quanto ao risco de transmissão, chegando ao uma percepção do fenômeno existencial (humano, mundo, problema, intervenção) inserindo os modos de ser do ser no mundo sindêmico, potencializando os aspectos sociais, biológicos/ orgânicos, psicológicos e até existenciais.  

Na perspectiva, aqui-agora descrita, a sindemia é um termo que indica a responsabilidade que temos em descrever compreensivamente o conjunto de problemas de saúde, que são de fato interligados, e de modo complexo, mas de uma aproximação muito íntimas e ao mesmo tempo indissociáveis. Essa associação de doenças, quanto mais se interligam, mais elas vão se ampliando na contaminação uma das outras, prejudicando, mais e mais, a saúde do ser humano. O prejuízo pode ocorrer numa dimensão individual, mas, principalmente na coletiva, revelando de modo mais evidenciado as condições pelas quais tais pessoas estão inseridas, sendo elas oprimidas, marginalizadas, famintas, obesas, diabéticas, com sérios problemas cardiológicos, uso de drogas etc., pontuando o estado psicológico existencial em sentir-pensar-agir experiências negativas, pois injustas, como a  pobreza, a estigmatização, o distresse, a violência etc., que tem persistido na estrutura de uma sociedade de classe, estruturada por um capitalismo selvagem.

Assim sendo, a sindemia envolve grupamentos de duas ou mais doenças entre o coletivo populacional, bem como o mostrar da indissociação de fatores psicológicos (problemas emocionais; problemas na aprendizagem devido à tensão gerada, por exemplo), sociais (e culturais), e de chofre, o biológico ou orgânico-corporal (doenças infecciosas e parasitárias, doenças crônicas não transmissíveis, desnutrição etc.).

*

Temos estudado o/a aluno/a cego/a no processo "pendêmico" da Covid-19  associado com outras doenças (psicológicas, biológicas, sociais) em contextos sociais diferenciados, que o são, de modo radical, pela classe social, configurando, então, o que se denomina de sindemia. Temos focado uma Educação Especial dentro e fora da classe hospitalar, observando o sujeito propriamente dito com suas singularidades, assim como sua família e ao entorno, fazendo parcerias com os serviços públicos de saúde e de educação fora do hospital (classe hospitalar).

Compreendemos o aluno cego empobrecido pelo sistema capitalista selvagem. Seu nome pode ser Kongpob, e ele pode ser compreendido como aquela pessoa com uma vivência distressante que a sindemia acarretou, inclusive, dificuldades emocionais e "tensionais" (corporais) que o perturbava no seu desempenho acadêmico em "estudos online" no seu domicílio, ou estando ele numa "sala de aula inclusiva" ou numa "classe hospitalar", lugares de sentido em que vinha obtendo bons rendimentos, só que antes do fenômeno sindêmico. O reflexo existencial de uma Covid-19 na pessoa cega, no seu caso, produziu impacto nos "modos (dele) de ser" cego no seu "ser no mundo" complexo, injusto e perverso, apesar de algumas subjetividades e objetividades positivas. Tanta psicopatia advinda das pessoas e da necropolítica (Estado) foi desvelada frente às situações caóticas da saúde pública brasileira, devido mesmo a uma péssima gestão dos serviços (de saúde) oferecidos pelo país ao cidadão empobrecido e oprimido.

O atendimento oferecido não foi da altura de uma pessoa cega e rica, ele mesmo percebeu isso, um médico chegou a expressar isso conosco - com o Grufei, a diferença de tratamento na saúde pública comparado com o de pacientes conveniados com sistema privados de saúde, ainda que no caso da Covid os recursos cientificamente disponíveis serem bem escasso.

A professora de Educação Especial no seu cotidiano, poderá desaperceber um cotidiano de ser cego, que nas condições de prevenção contra a Covid, seu aluno tenderá a sair prejudicado, pois, não enxergando, tudo fica difícil a ele nesse contexto sindêmico, por ex. Fica muito difícil ao aluno cego fiscalizar o uso, no outro, da máscara, do álcool gel, assim como o distanciamento, e o não passar as mãos em objetos que podem estar contaminados etc.

As mãos, não só elas, mas principalmente elas, são uma das possibilidades (ricas, até) do cego lidar com as coisas dos mundos, o outro e os outros - tocar, o autorizar-se tocar-se e permitir que o outro o toque. E em ambiente inóspitos, adversos/ agressivos/ perversos/ preconceituosos/ estigmatizadores/ discriminadores etc., o "passar as mãos" torna-se assim mais um risco para expressar seus "modos de ser" frente à sindemia da Covid. Mas, esse "ser no mundo" vive em um mundo desigual, principalmente marcado pelas classes sociais.

Assim, por ex., um cego com Covid fazendo prevenção contra, sendo este pobre, com cânce e ou outro, sendo aquele rico e com câncer, (eles) vivenciarão possibilidades diferenciadas de acordo com a classe de onde eles estão instalados pela produção capitalista selvagem, podendo ter semelhanças e diferenças, tanto positivas e ou negativas pra ambos os lados, mas, sem dúvida, o indivíduo cego rico poderá ampliar mais suas redes de cuidados concretos.

Imaginemos cegos dois diabéticos obesos, tipo 2, com a mesma idade cronológica, mesmo peso. Um é rico e tem acesso a remédios caros e de bons resultados clínicos, como Saxenda, que custa cerca de 800 reais a caixa, com três canetas, se se ele aplica 3ml ao dia, o remédio não durará nem um mês. Ele poderá tomar Trulicyt que custa cerca de 300 reais, com duas canetas, que duram duas semanas apenas, além dos outros remédios que se consegue, apenas com uma receita médica, via serviço público de saúde como Glifage e outros, mas não pode recorrer à Saxenda e Trulicyt no público, pelo menos, por ora. O diabético empobrecido só tomaria Glifage e outros. Isso sem considerar as dificuldades de acesso ao serviço público de saúde, devido até mesmo, à desinformação ou desesperança. Ambos têm que fazer regimes alimentares - com e sem nutricionistas; exercícios físicos - com ou sem academia, e ou professor particular de treinamento físico; e os referidos remédios, e isto implica em gastos econômico, conhecimento, capacidade a produzir resistências e reivindicação etc. Pela probabilidade, o diabético rico, que tem acesso aos mais diversos e atualizados remédios na esfera de sua doença, academias, nutrólogos (médicos) e nutricionistas, psicólogos clínicos, psiquiatras etc., provavelmente sairá melhor do quadro, isso sem contar com atendimentos médicos por planos privados de saúde ou atendimentos privados mesmos - ainda que possa haver diferenças, exceções. Isso começa a pontuar o sentido de ser cego empobrecido e ou rico, vivenciando um processo de sindemia.

Por isso, é preciso estancar imediatamente as ações necropolíticas e partir para uma reformulação ágil dos sistemas públicos de saúde, retomando valores humanos dentro de uma humanidade ético-estética -  o "quão belo" (estética) é cuidar (ética), por sinal, investimentos "esquecidos" até intencionalmente pelo Estado necropolítico. E a saúde pública é bem mais do que oferecer vacinas, algo indispensável e vital, potente, mas cuidar de outros aspectos relacionados à saúde em geral: toda saúde e sua relação com a educação (pública), justiça, segurança etc.

Já os serviços de saúde e educação, nestes tempos-espaços, poderia focar na formação de sujeitos mais reivindicativos, resistentes, opositores à corrupção do Estado necrófílo, onde as relações interpessoais sejam suficientemente positivas, para recordar ao aluno cidadão: a) que as relações interpessoais positivas ajudam na produção da boa saúde mental; b) de que elas, as relações amorosas professor-aluno, possam (co)mover o processo ensino-aprendizagem de aluno especiais ou não, nos conteúdos educacionais e escolares, sejam os planejados, sejam os politizados; c) produzir a conscientização crítica (Paulo Freire), bem como modos de ser na invenção da resistência e desobediência civil contra as necropolíticas na saúde e fora dela; valorizar a ciência, mas sem endeusá-la alienadamente, reconhecendo seu papel e força frente a uma pandemia, que de fato acaba configurando uma sindemia - etc.

domingo, 4 de abril de 2021

  - SERÁ QUE MINHA DOR É SEU PRAZER SECRETO?


[Hiran Pinel, autor]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

MIL ESTRELAS E A MAIOR DELAS É EARTH PIRAPAT W.

Quem gosta de criticar negativamente o ator tailandês Earth Pirapat W., pode mudar de opinião, pelo menos sendo mais generoso com a vida e consigo próprio... No episódio 5, de "1000stars" (série tailandesa) o ator, com seu personagem Phupha, dá show de interpretação... Tem uma cena que Tian descreve Phupha como rígido e pede-lhe um sorriso. O ator se mexe e remexe, como se não tivesse espaço e nem tempo... Então, o ator (com seu personagem enfiado no seu corpo) entra numa pequena conversão... Ele fotografa Tian, sem ele perceber e olhando a imagem sorri... É um aula de interpretação, de rara sensibilidade. O diretor está certo: é o momento de Pirapat mostrar seu talento, e a oportunidade, e ele não a desprezou... Desde o começo da carreira ele foi uma imensa estrela e ator, mas, nessa série, ele é um grande ator sem jamais perder o estrelato... Fato: desde o primeiro episódio de "1000stars" Pirapat está perfeito como o guarda florestal chefe ou supervisor rígido, duro, sólido e que só o amor é capaz de lentamente amolecê-lo, derretê-lo como gelo sob o sol de Chian Rai ou ou Mai (confundo-me kkk)... Esse ponto é um clichê, mas Pirapat o transforma em arte.

[Hiran Pinel, autor; em 26/02/2021 - Vitória, ES. - Brasil - América do Sul - Mundo - Universo]