quinta-feira, 20 de agosto de 2026

SARTRE: EPOCHÉ, MÉTODOS DE PESQUISA EM "O SER E NADA" E EM "CRÍTICA DA RAZÃO DIALÉTICA" 

Como Sartre entende a epoché de Husserl? Qual o método de Sartre quando escreveu Ser e Nada? Qual o método dele quando escreveu Crítica da Razão Dialética?

Jean-Paul Sartre aceita a intencionalidade da consciência de Edmund Husserl, mas recusa radicalmente a virada transcendental que coloca o Ego como estrutura habitante da consciência. Essa divergência reconfigura a epoché e delimita a transição metodológica de sua obra.

A Reinterpretação Sartriana da Epoché

Para Husserl, a epoché (suspensão do juízo da atitude natural) conduz à redução transcendental, revelando um Ego Transcendental que constitui o mundo. Sartre, em A Transcendência do Ego (1936), rejeita essa ideia:

  • Consciência Impessoal e Translúcida: A epoché deve revelar a consciência pura como um nada de ser, sem "conteúdos" e sem um Ego interno. O Ego não é sujeito, mas um objeto no mundo, constituído pela própria consciência reflexiva.

  • Recusa do Idealismo: Ao suspender a tese do mundo, Husserl teria recaído no idealismo. Para Sartre, a epoché deve apenas descrever a intencionalidade: a consciência é sempre consciência de algo distinto de si. O mundo permanece real, opaco e exterior.

O Método em O Ser e o Nada (1943): Fenomenologia Ontológica

Sartre combina a descrição fenomenológica com uma investigação ontológica sobre as estruturas da realidade.

  • Ponto de Partida Descritivo: Analisa a experiência concreta (como a má-fé, o olhar do Outro e a vergonha) para extrair as estruturas constitutivas do ser.

  • Dualismo Ontológico: Revela as estruturas do Em-si (ser pleno, opaco e contingente) e do Para-si (consciência, nada, liberdade e temporalidade).

  • Fenomenologia do Nada: Ao contrário da ontologia clássica, o nada não é mera abstração lógica, mas introduzido no mundo pela ação do Para-si via "nadação" (néantisation).

O Método na Crítica da Razão Dialética (1960): Método Progressivo-Regressivo

Para integrar o existencialismo ao marxismo, Sartre desenvolve o método progressivo-regressivo, buscando articular a singularidade do indivíduo às determinações socio-históricas de classe.

EtapaFocoAção Metodológica
RegressivaAnálise Histórica e MaterialRecua da práxis individual para as condições materiais, contradições de classe e estruturas sociais preexistentes que condicionam o sujeito.
ProgressivaSíntese e PráxisAvança da condição dada para a ação concreta, examinando como o indivíduo supera suas determinações por meio do projeto e cria novas realidades (alienação, prático-inerte ou grupo em fusão).

Enquanto O Ser e o Nada analisa a liberdade ontológica do indivíduo em um campo fenomenológico, a Crítica analisa a liberdade situada dentro da escassez e da história concreta.