SARTRE: EPOCHÉ, MÉTODOS DE PESQUISA EM "O SER E NADA" E EM "CRÍTICA DA RAZÃO DIALÉTICA"
Jean-Paul Sartre aceita a intencionalidade da consciência de Edmund Husserl, mas recusa radicalmente a virada transcendental que coloca o Ego como estrutura habitante da consciência. Essa divergência reconfigura a epoché e delimita a transição metodológica de sua obra.
A Reinterpretação Sartriana da Epoché
Para Husserl, a epoché (suspensão do juízo da atitude natural) conduz à redução transcendental, revelando um Ego Transcendental que constitui o mundo. Sartre, em A Transcendência do Ego (1936), rejeita essa ideia:
Consciência Impessoal e Translúcida: A epoché deve revelar a consciência pura como um nada de ser, sem "conteúdos" e sem um Ego interno. O Ego não é sujeito, mas um objeto no mundo, constituído pela própria consciência reflexiva.
Recusa do Idealismo: Ao suspender a tese do mundo, Husserl teria recaído no idealismo. Para Sartre, a epoché deve apenas descrever a intencionalidade: a consciência é sempre consciência de algo distinto de si. O mundo permanece real, opaco e exterior.
O Método em O Ser e o Nada (1943): Fenomenologia Ontológica
Sartre combina a descrição fenomenológica com uma investigação ontológica sobre as estruturas da realidade.
Ponto de Partida Descritivo: Analisa a experiência concreta (como a má-fé, o olhar do Outro e a vergonha) para extrair as estruturas constitutivas do ser.
Dualismo Ontológico: Revela as estruturas do Em-si (ser pleno, opaco e contingente) e do Para-si (consciência, nada, liberdade e temporalidade).
Fenomenologia do Nada: Ao contrário da ontologia clássica, o nada não é mera abstração lógica, mas introduzido no mundo pela ação do Para-si via "nadação" (néantisation).
O Método na Crítica da Razão Dialética (1960): Método Progressivo-Regressivo
Para integrar o existencialismo ao marxismo, Sartre desenvolve o método progressivo-regressivo, buscando articular a singularidade do indivíduo às determinações socio-históricas de classe.
Enquanto O Ser e o Nada analisa a liberdade ontológica do indivíduo em um campo fenomenológico, a Crítica analisa a liberdade situada dentro da escassez e da história concreta.