MÉTODO
FENOMENOLÓGICO PÓS-HUSSEL
O método
fenomenológico pós-Husserl marca a virada da fenomenologia trascendental
para a fenomenologia hermenêutica e existencial. A ruptura central
ocorreu quando pensadores como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty,
Jean-Paul Sartre e Paul Ricœur questionaram a viabilidade da epoché husserliana
— a suspensão neutra dos juízos e do mundo externo para alcançar um "eu
puro" ou a essência da consciência.
1. O Abandono da
Epoché e a Virada Hermenêutica
Para Husserl, a epoché buscava
colocar o mundo "entre parênteses" para analisar as estruturas
constitutivas da consciência (noesis-noema). Os pós-husserlianos entenderam que
tal neutralidade absoluta (da epoché) é uma ilusão metodológica:
- Inseparabilidade do Mundo (Dasein): Heidegger argumenta que o
ser humano é ser-no-mundo (In-der-Welt-sein). Não há uma consciência pura
observando o mundo de fora; já estamos lançados em uma rede de
significados, cultura, linguagem e história.
- Impossibilidade da Neutralidade: Como não é possível
"desligar" o próprio ser para analisar o objeto, a tentativa de
fazer uma epoché purificadora é abandonada em prol da explicitação das pré-compreensões.
- Da Descrição à Interpretação: A tarefa da fenomenologia
deixa de ser a descrição pura das essências e passa a ser a compreensão
interpretativa (hermenêutica) do sentido da existência concreta.
O círculo hermenêutico na fenomenologia pós-Husserl. Fonte: SciELO
2. A Identidade do
Método Fenomenológico Pós-Husserliano
Após o abandono da epoquê husserliana
tradicional, a fenomenologia assume uma identidade hermenêutico-existencial
e encarnada. Ela se firma não como uma busca por verdades estáticas, mas
como um rigoroso método de explicitação dos sentidos da experiência vivida
(Lebenswelt).
As Quatro Mutações
Fundamentais da Identidade Metodológica
|
Dimensão |
Fenomenologia Husserliana (Trascendental) |
Fenomenologia Pós-Husserliana (Hermenêutica/Existencial) |
|
Foco de Análise |
Consciência
intencional e ego trascendental. |
Existência
concreta, corporeidade e ser-no-mundo. |
|
Postura do
Pesquisador |
Observador neutro
que aplica a epoché. |
Sujeito implicado
que reconhece sua historicidade. |
|
Operação
Principal |
Descrição e
redução eidética (de essências). |
Interpretação
hermenêutica e analítica existencial. |
|
Horizonte |
Validade
universal das estruturas da consciência. |
Historicidade,
finitude, linguagem e contexto da vivência. |
3. O Método como
Investigação Científica Qualitativa
Nas ciências humanas e da saúde
contemporâneas (como Psicologia, Enfermagem e Educação), o método
fenomenológico pós-husserliano consolidou-se através de procedimentos
qualitativos rigorosos:
1. Acolhimento da
Pré-compreensão: O pesquisador não finge neutralidade. Ele explicita suas premissas
teóricas e existenciais antes e durante a investigação, integrando-as
criticamente ao processo.
2. Círculo
Hermenêutico: Movimento dialético entre a totalidade do texto/relato e suas partes. A
interpretação avança conforme o pesquisador confronta sua pré-compreensão com
os dados da experiência do participante.
3. Analítica do Mundo
da Vida (Lebenswelt): Investigação focalizada nas dimensões da existência concreta:
o Linguagem e
Narrativa: A análise do discurso como espaço de revelação do sentido (Gadamer,
Ricœur).
o Corporeidade (Lived
Body): O corpo próprio como mediação primária de percepção e ação no mundo
(Merleau-Ponty).
o Temporalidade e
Spatialidade Existenciais: Como o tempo vivido e o espaço afetam a
experiência do fenômeno estudado.
Em suma, a identidade desse método
científico não se sustenta no isolamento do fenômeno em laboratório ou sob o
olhar de um espectador descompromissado, mas na compreensão interpretativa
da experiência vivida em seu horizonte histórico e existencial.
**
Os
pensadores que se seguiram a Husserl não descartaram a fenomenologia, mas
redefiniram seus fundamentos ao apontar que a epoché (a suspensão do
julgamento sobre o mundo externo para acessar a consciência pura) dependia de
uma premissa irreal: a possibilidade de separar o sujeito do mundo que ele
habita.
Abaixo
estão as críticas centrais feitas por Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty e
Jean-Paul Sartre.
1. Martin Heidegger: A Impossibilidade da Distância
e a Primazia do Dasein
Heidegger
altera o eixo da fenomenologia da epistemologia (como conhecemos) para a
ontologia (como somos). Sua crítica à epoché estrutura-se em dois
pontos principais:
- O Ser-no-Mundo (In-der-Welt-sein): Para Heidegger, a
consciência não é uma entidade isolada que observa o mundo de fora. O ser
humano (Dasein) já está, desde sempre, "lançado" em uma
teia de relações, práticas, cultura e linguagem. Colocar o mundo
"entre parênteses" pressupõe que podemos nos desligar dessa
teia, o que é uma ilusão.
- A Ante-Estrutura da
Compreensão (Vor-struktur): Toda interpretação da realidade parte de pré-compreensões
históricas e existenciais. Em vez de tentar eliminar ou suspender esses
pressupostos por meio da epoché, a tarefa da fenomenologia (agora
hermenêutica) é explicitá-los e interpretá-los.
2. Maurice Merleau-Ponty: A Incompledeza da Redução
e o Corpo Próprio
Merleau-Ponty
dedica o prefácio da Fenomenologia da Percepção a reavaliar a redução
husserliana. Ele imortalizou essa crítica com a célebre frase: "O maior
ensinamento da redução é a impossibilidade de uma redução completa."
- O Corpo Encarnado (Corps
Propre):
Merleau-Ponty argumenta que não percebemos o mundo com uma mente pura, mas
com e através de um corpo biológico, histórico e situado. Como a nossa
própria percepção é fruto dessa ancoragem corporal no mundo, é impossível
"suspender" a presença do mundo sem suspender o próprio sujeito
da percepção.
- A Epoché como
Revelação, Não como Desconexão: Para Merleau-Ponty, o verdadeiro papel da
redução não é nos afastar do mundo para encontrar essências puras, mas
romper momentaneamente com a nossa atitude irrefletida (atitude natural)
apenas para nos fazer admirar e reconhecer o quanto já estamos
visceralmente enraizados na realidade.
3. Jean-Paul Sartre: A Consciência Desprovida de
"Eu Puro"
Sartre,
em A Transcendência do Ego e O Ser e o Nada, aceita a
intencionalidade husserliana ("toda consciência é consciência de
algo"), mas rejeita veementemente o resultado que Husserl buscava com a epoché:
o Ego Trascendental (o "Eu puro").
- O Ego está no Mundo, Não na
Consciência:
Sartre sustenta que a epoché husserliana cometeu o erro de colocar
um "Eu" dentro da consciência purificada. Para Sartre, a
consciência reflexiva pura é um "nada" — uma abertura esvaziada
—, e o "Eu" é apenas um objeto como qualquer outro, construído no
próprio mundo e através da ação no tempo.
- Radicalidade do Engajamento: Para Sartre, tentar
suspender a tese do mundo para alcançar uma esfera pura e contemplativa é
uma tentativa de fugir da contingência e da responsabilidade da ação
concreta (o que ele mais tarde relacionaria à "má-fé"). A
existência precede a essência; portanto, não há essências puras a serem
contempladas no isolamento da epoché.
Quadro Comparativo das Objeções
|
Filósofo |
Objeção Principal à Epoché |
Conceito Chave de Substituição |
|
Martin Heidegger |
O sujeito não pode se desligar
da rede de significados em que já está lançado. |
Dasein (Ser-no-mundo) e Hermenêutica. |
|
Maurice Merleau-Ponty |
A percepção é encarnada; o
corpo não pode suspender o mundo do qual faz parte. |
Corpo Próprio e Incompletude da
Redução. |
|
Jean-Paul Sartre |
Não existe um "Ego
puro" por trás da consciência para onde recuar. |
Consciência Transparente e
Existência Situada. |